13 outubro 2005

26. Receios na Alfândega

6.Na véspera da tomada do comboio até à Mongólia, tivemos a certeza de estarmos em risco de sofrer uma grave penalidade na alfândega Russa. Aconteceu em conversa com um casal franco/inglês no hostel e foi depois confirmado no guia Lonely Planet.
Pela lei russa, qualquer quantia de dinheiro líquido em moeda estrangeira a entrar na Rússia deve ser declarada na alfândega sob pena de ser apreendida à saída (se é uma medida caça-máfias tem-se revelado altamente profícua!). Em Moscovo, aquando da chegada, passamos no corredor verde "nada a declarar" e no entanto tínhamos em nossa posse 400 euros em notas, quantia que se mantinha nos nossos bolsos na véspera da saída. Deparámo-nos então com o seguinte dilema: ou cambiávamos os 400 euros por Rublos (que já não iríamos necessitar), à pressa e com altas comissões; ou escondíamos o dinheiro e arriscávamos ser revistados pelo agentes alfandegários russos, que à pala da referida lei tentam ao máximo sacar dólares ao turista. O guia chama-lhe o Customs scam e conta que muitos já lá deixaram centenas de dólares.
A decisão foi...desafiar a Mat Rassia (Russo para "Mãe Russa")! Eu levava 100 euros em cada bota e a Jota levava 200 nas cuecas (com esta é que o blog arrisca vigilância da CIA).
Levámos seis horas a chegar à fronteira, até que o comboio parou... e a hospedeira nos disse: -Daqui a duas horas toda a gente tem de estar no seu lugar e já não pode sair da carruagem. Daí a três horas entram três aduaneiros russos. Dois boçais para o trabalho físico e um "moscovita", de posto superior, que resmungou: - Passeparte!... Pegou neles e saiu. Lá ficamos nós, mais os dois dinamarqueses companheiros de compartimento, na expectativa. Meia hora depois entram de novo os alfandegários e pedem-nos para sair do compartimento e ficarmos de pé no corredor, alinhados. Obedecemos. Um dos boçais, brusco e desajeitado, inspecciona o compartimento enquanto o Moscovita nos fita de alto a baixo.
CARIMBADO estava o passaporte quando o abrimos depois de nos ter sido entregue pelo oficial que saiu em caminho para passar revista aos compartimentos seguintes. A tramóia tinha funcionado. Com os nossos euros os russos não ficaram!
Mais uma hora passada e o comboio avançou dois quilómetros até à alfândega Mongol. Estávamos já descansados quando entraram três aduaneiras Mongois e a primeira coisa que nos disseram foi para fecharmos as cortinas da janela. Não sei se para não vermos a delinquência que se passeava no cais, se para a delinquência não ver a acção no compartimento. Passaportes solicitados e entregues - Francis? Stand Up! Look at me. Where are you going? How long do you plan to stay? ... E novamente no corredor e novamente inspecção ao compartimento. Novo carimbo e novas três horas de espera.
E assim se passou a fronteira... e o dia!


posto fronteiriço Russo; ponto de fuga na fronteira; posto fronteiriço Mongol; viagem num comboio de uma carruagem só

12 outubro 2005

25. Em Ulan Ude

Ulan Ude é a nossa última cidade antes de entrarmos na Mongólia.
No trajecto de comboio de Irkutsk até cá subimos a altitudes onde a neve já deixava as suas marcas e circulámos ainda junto à margem sul do Lago Baikal. O tempo não ajudou nada nas fotos mas o lago não deixa de ser impressionantemente grande: o comboio levou mais do que cinco horas a ladear a sua curva inferior.
Hoje em Ulan Ude amanheceu a nevar! Ainda assim fomos até ao chamado centro Budista da Siberia Ivolginsk Datsan (fundado em 1946), a três quartos de horas de viagem, no vale entre as áridas montanhas de Khamardaban.
Amanhã, e de novo antes de em Portugal terminar o dia de hoje, tomaremos o comboio "lento" até à capital da Mongólia: Ulan Bator. A viagem prevê-se que demore 24horas.

as primeiras neves da Sibéria pela janela do comboio; as segundas neves; a noite; a maior cabeça do mundo em bronze; o templo de Ivolginsk Datsan

24. Dormidas, comidas e frio

Tirando o custo excepcionalmente barato da estadia na Ilha de Olkhon, os preços dos quartos (hotéis ou hosteis) têm-nos parecido demasiado caros, ainda mais considerando as condições que oferecem. Andamos no entanto dentro da nossa previsão de gastos o que pode ser positivo se na Mongólia os preços baixarem (como esperamos).
Temos ficado em hotéis tipicamente da época soviética, gastos como o cotovelo de um funcionário publico mas com casa de banho própria, lençóis e toalhas lavados!

A comida tem sido quase totalmente BIEZ MIASSA - que é como em Russo se diz: sem carne! Comemos algum Omul na Ilha de Olkhon (um peixe que vive apenas no Baikal e que sabe, como todo o peixe, ao tempero que lhe dão!) mas não provamos o Omul seco/fumado que empesta as carruagens do comboio.
Somos adoradores de BLINI (panquecas), CACHA (porridge - papas de aveia ou trigo), PIROJKI (qualquer coisa parecida com um pão de massa tenra recheado com couve, ou batata, ou carne).
Já estamos batidos em sopas: URRA (sopa de peixe) e SALIANKA (de couve com carne - que não se vê só se sabe!). E muito TCHAI claro!

Pouco batidos estamos no frio. Até agora tem estado frio é certo, mas nem foi necessário recorrer ao máximo do equipamento térmico. Apenas hoje nos reforçamos e, verdade se diga, está um frio dos diabos mas só o sentimos na cara. Os tecidos "cromos" (polares térmicos, berguelenes, capilenes, gore-texs, forz-class 500 e clima-ways) resistem por nós.
Não se preocupem porque há ainda a enorme vantagem de em cada esquina se poder beber um chá quente e de tudo o que é casa e carro estarem aquecidos com toda a força.
Esperamos que na Mongólia a famosa ausência de nuvens deixe o sol aquecer o ar!

quarto duplo na Rússia: eternamente com duas camas; só uma torneira; pic-nic na Ilha de Olkhon

10 outubro 2005

23. Atenção outra vez

Continuam a brotar novos posts e novas fotos lá para trás!

22. A banhos na Ilha de Olkhon

Como é que era? Mergulhar uma mão na água mágica do Baikal dava mais um? dois? cinco anos de vida? Quantos anos valia um mergulho completo?
Ao fim do nosso segundo dia na ilha o sol mostrou-se. A mochila estava apetrechada de fato de banho e toalha. As reflexões tinham, durante o dia, passado a decisões. O Quico também já estava avisado das minhas intenções e tinha feito as suas perguntas e mostrado os seus receios. No alto da arriba sentia-se um vento capaz de justificar uma desistência. Talvez lá em baixo a praia, a poente, estivesse abrigada. Não havia desculpas, nem agora nem ali, para pelos menos não tentar ir a banhos no Baikal!
Descemos. O vento não chegava à praia. Primeira etapa: descascar-me e enfrentar o frio do ar. No instante entre o despir casacos e o vestir fato de banho, a excitação enrolou-se-me no corpo. O ar não estava tão frio e dei comigo, num repente, a dar seis passos até à água. Doeram-me os pés do frio mas mais nada. Consegui ter atenção ao fundo do lago (tão tão transparente!!); avancei até achar que estava a uma distância "rápida" da areia e deixei-me cair para o fundo! Dei umas braçadas, a cabeça aqueceu e tive mesmo de a refrescar. Quando a água me encheu a cara, a boca sobe-me a doce! Entre o frio e o medo de estar ali naquela água gelada, resolvi sair. Doíam-me as canelas e os antebraços. (tentei uma segunda ida mas não passei da entrada... doeram-me os gémeos!)
A toalha que me secou parecia um pente que me passava pela pele.
Já vestida, quente do sol, senti o corpo desanestesiar e comecei a ter uns "saudáveis" arrepios de frio.

Regressámos ao Nikita's. Uma hora passada e estávamos os dois no BANYA, uma sauna russa que se alterna com banho de água tépida. A pela manchada a vermelho do calor, a ponta do nariz a arder, o coração acelerado e o corpo todo a suar. Custou-me bem mais este banho quente de uma hora do que os trinta segundos no Baikal.

21. Nikita's - backpackers paradise?

No bus das 8:10 para Khuzhir (aldeia capital da ilha de Olkhon) estavam surpreendentemente 11 backpackers. 4 Suíços, 1 Canadiano, 1 Finlandesa, 3 Sul Coreanos e 2 Portugueses; todos alimentados pelos mesmos guidebooks que referem o hostel Nikita's como o premium backpackers place to stay. Uma vez lá instalados os comentários voavam: "UAU; best place I've seen in Russia; so cheap and such great food; lots of exciting things to do!". O Nikita's funciona há 15 anos e domina o turismo budget da ilha. É uma propriedade não muito grande mas recheada de log cabins com quartos, cozinhas, refeitórios, banhos, etc. Comparando com os altos preços que se praticam na Rússia, o Nikita's é um achado! Tem imensas pessoas ao seu serviço, o que faz pensar como é possível a sua viabilidade económica... quanto receberá a cozinheira que nos serve?... e o Mongol que nos acende a lareira?...Não fosse a eterna repulsa que ganhei às composting toilets só teria maravilhas a dizer do Nikita's... se gostasse apaixonadamente de backpackers paradises... Confesso!... talvez seja da idade... mas há algo que me é insatisfatório. Será porque as palavras mais recorrentes dos convívios são cheap e expensive?... ou porque alguns companheiros parecem anestesiados de tanto verem e nada fazerem?... mais objectivamente: sinto que quando a densidade de mochileiros aumenta, bate-nos mais de frente a ideia que a linha que separa o turismo budget do outro turismo é muito ténue... andamos todos pelos mesmos paths... guiados pelo mesmo lonely planet... afinal tão povoado. E no entanto foram todos tão simpáticos, tão anti-moscovitas!

o nosso quarto na log cabin; Khuzhir; os companheiros de hostel, na excursão ao norte da ilha, de volta de um santuário xamã

20. Uma ilha no Baikal

Olkhon; 70 km por 15; 1500 habitantes; uma fábrica de fumar e embalar peixe e um hostel para mochileiros.
O lago e a ilha são de facto lugares especiais. Não admira a devoção espiritual que por lá paira. O Xamanismo (religião primitiva) considera o lugar de alta intensidade energética. Os Xamãs (videntes e curandeiros) atraem muita peregrinação e polvilham a ilha de simbólicos postes de madeira onde os crentes penduram pedaços de roupa pessoal, dinheiro e cigarros!
Estamos de volta a Irkutsk e, amanhã pelas 11 horas da manhã, tomamos novamente o comboio até Ulan Ude - última paragem antes de entrarmos na Mongólia.

perfil; o pinheiro de agulha caduca; barcos junto à fábrica de fumar peixe; encostas de Olkhon

07 outubro 2005

19. (H)á pressa em Irkutsk

Chegámos hoje de madrugada a Irkutsk depois de umas boas oitenta horas de comboio.
A pé procurámos o quarto; a pé tratámos de carimbar o “papelinho de migração” que os Russos exigem para nos seguirem o rasto (Ufa!); a pé fomos saber os horários dos buses; e a pé, e ainda DE pé, encontrámos um restaurante capaz de encher a barriga a dois guerreiros caminhantes.
Foi assim que num só dia ficamos a conhecer Irkutsk. Toda a Irkutsk que há para ver. Amanhã logo cedo (ainda no dia de hoje ai em Portugal) estaremos no bus para a ilha de Olkhon onde vamos finalmente poder avaliar a fama do Lago Baikal.

vistas do topo da torre sineira da primeira igreja de Irkutsk sobre o rio Angará: o único que "sai" do Baikal; um miúdo apanhado a ver quem lá vem; várias linhas; um eléctrico (tramvai); um proto-edificio por acabar desde 1970(?)

18. Uma familia da Ossétia do Sul

No dia em que madruguei e abanquei no corredor a filmar a estepe, fui interpelado pelo Bulldozzer do compartimento ao lado. O meu "iá ni gavariu pá ruski" não o demoveu. Passou à linguagem gestual... lá percebi que se referia a baixa inclinação do sol...que as sombras fazem boas fotos. Logo de seguida apareceu a filha Caterpillar e desenhou num guardanapo montanhas e um sol... e finalmente se iluminou no meu cérebro a onomatopeia que o Bulldozzer pronunciava "HARRHKARSS...HARRHKARSS..." CÁUCASO! eles são das montanhas do Cáucaso!
Mais tarde já com a Jota a liderar a tradução, ficámos a saber que vêm da Ossétia do Sul (mesmo ao lado da Chechénia mas pertencente à Geórgia) e que viajam até Irkutsk para participar nas comemorações do 30º. aniversário da Faculdade local que os formou (ao Bulldozzer pai e ao BobCat irmão) em engenharia ferroviária.
Falam orgulhosamente da Ossétia do Sul e dos seus prodígios... que as montanhas são óptimas para o ski, que um tal TMENOV foi campeão olímpico de luta greco-romana... que há dois anos uma avalanche gigante soterrou meia cidade de VLADIKAFKASA e que todo o mundo ofereceu auxílio... que Israel lhes roubou a nafta toda... que com a queda da URSS fecharam as fábricas e desde ai há muita emigração (nomeadamente para Portugal - cabeleireiros e manicures em situação ilegal!?)... que são campeões do mundo de braço de ferro em todas as categorias, femininos incluído... e por aí fora.

À noite estudei o guia. A cordilheira do Cáucaso liga o mar Negro ao mar Cáspio e dela faz parte o Monte Elbrus (com 5600m). A região é um melting pott de raças, línguas e religiões. Os actuais Ossétios resultam da fusão entre os ancestrais Alanos e Sarmatianos que se estabeleceram na área durante o Séc. XI. Duzentos anos depois foram arrasados pelos Tártaros Mongóis. Mais cem anos e nova invasão e ocupação desta feita dos Tarmelene Muçulmanos. Em 1550, o império Russo de Ivan o Terrível chegou ao Cáucaso, implantou-se, ganhou influência económica e acabou por expulsar os Otomanos (Turcos), para Sul. O Séc. XIX foi marcado por fortes rebeliões contra o império Russo (Cristãos Ortodoxos) por parte da populações Muçulmanas fiéis a Alá. Com os Soviets, a opressão foi ainda maior e incluiu deportações em massa dos insurrectos para a Sibéria. Da era pós-Soviética resultou a independência da Geórgia a sul, e o retalho a norte de várias federações autónomas dentro da Rússia... com a instabilidade conhecida.

Os nosso vizinhos de carruagem dizem que nem sabem bem como se tornaram Geórgios... que tudo foi decidido num ápice... por influências de George Bush Sénior.
Os três Ossétios mostraram uma dignidade de poucas palavras e um savoir faire que nos aprazou... bem mais do que a euforia embriagada Russa.

a estepe; Jota em acção de tradução; a filha, o representante da Universidade, o irmão, o motorista, o pai e eu.

17. A Volta ao mundo na Sibéria

Todos os comboios Russos têm um número. O nosso é o dez, mas para além do número tem um nome - Baikal. Já li que era o que tem o melhor serviço da Rússia. Estivemos na classe kupe (segunda), ou seja em compartimentos cama de quatro pessoas. Foram três dias e quatro noites de vistas, leituras e convívios com os parceiros da carruagem (sim, os da CARRUAGEM. Os do nosso compartimentos eram puros sangue Moscovita). Quanto a leituras... dei a volta ao Mundo... com o Gonçalo Cadilhe!

05 outubro 2005

16. Longa Metragem

Sobre o vidro da janela do nosso compartimento projecta-se, em sessões contínuas, sempre a mesma longa metragem.
Ora comecemos a ver o filme na cena da estação de comboio. No cais uma série de Babushkas movimenta um cesto inchado, de carruagem em carruagem. Vendem aos passageiros comida quente, pastéis recheados, saladas de couve frescas, ovos cozidos. Umas há que trazem, num arame, peixe seco pendurado pela cabeça.
Saem de cena as Babushkas empurradas pela imagem de uma paisagem que vem surgindo pela direita.
A paisagem é amarela e assim vai continuar. Ao fundo, em vez da linha do horizonte há uma onda de árvores de copa parda. (Nem o homem maior e mais forte conseguiria lá chegar; a noite cairia primeiro e o frio mata-lo-ia.) Sob os tufos de erva amarela esconde-se água que por vezes se desvenda num ou outro lago.
Uma casa. Uma casa. Casas de cara virada ao sol. São casas de madeira cor de madeira, com cercas que só guardam montinhos de feno. Não há estradas nem carros. Só caminhos de lama seca ladeados pelas ervas amarelas. Uma casa. Desapareceu.
Volta mais erva amarela, as arvores ao fundo e agora umas mais à frente.
Um carro. Um carro! Uma estrada de alcatrão, uma ponte! Uma cidade com casas altas de betão.
Chegamos de novo ao cais, às Babushkas que vendem a comida, e depois volta a erva amarela a empurrar as Babushkas.
E a longa-metragem segue andando até a tela ficar preta por umas horas, à la Manuel de Oliveira.

uma paisagem: TODA a paisagem; reparem bem no que vende a Babushka; as casas que antecedem a TODA a paisagem

04 outubro 2005

15. Ainda sobre Moscovo

O Kremlin é uma fortificação, o equivalente ao nosso castelo medieval. É o local exacto da fundação da cidade no Séc. XI e é, estrategicamente, banhado a sul pelo rio. É o centro geográfico da Mega-Metrópole de nove milhões de pessoas que hoje é Moscovo.
O Kremlin guarda e simboliza o poder governamental. Albergou Czares (mesmo depois de Pedro o Grande ter relocalizado a capital), Napoleão aquando da conquista, Lenine e Gorbatchov. Foi também o centro da igreja Russa e por isso está pejado de catedrais!
Exterior ao Kremlin, a cidade organiza-se radialmente em quatro circulares de diferentes épocas. Estaline impulsionou o actual urbanismo de Moscovo. Arrancou com a rede de Metro nos Anos 30, erigiu arranha-céus neogóticos em competição com os de Nova Iorque, demoliu e saneou meia Moscovo.
O que mais impressiona é a escala. As ruas e avenidas são larguíssimas e dominadas por veículos automóveis. Muitos edifícios ocupam um quarteirão por inteiro. São mastodontes construídos pelo estado... habitação, serviços, hotéis... parlamento (Duma)!
Deixo um estrato de um texto de Ossip Mandelstam de 1923 sobre o teatro Bolshoi:
" quatro cavalos do Bolshoi... grossas colunas dóricas... a praça da opera é um lago asfaltado e traçado pelos relâmpagos de palha dos eléctricos, às três da madrugada já o estralejar dos cascos o acordaram, os cascos dos modestos cavalos citadinos...
Reconheço-te, Praça da Grande Ópera - cordão umbilical das cidades europeias -, e em Moscovo não és pior nem melhor que as tuas irmãs."

teatro Bolshoi; Duma (parlamento); museu de arqueologia

14. Dimensão e controlo Moscovitas

Em Moscovo tudo é enorme! Não há ruas estreitas nem casas baixas. As estradas não se atravessam com passadeiras mas antes com passagens subterrâneas (onde em pouco mais de dois metros de altura se fazem encaixar guichets que vendem de donuts a cuecas). O metro tem dez linhas que se encaminham para o centro e uma décima primeira linha circular, que a todas intersecta; os comboios do metro circulam com menos de 2 minutos de diferença; o tempo entre uma estação de metro e a seguinte é impressionantemente alargado.
No fundo esta dimensão é compreensível: Moscovo tem nove milhões de habitantes.

Não menos difícil de compreender é que para manter em "ordem" tão gigantesca infra-estrutura haja que CONTROLAR.
O policiamento das ruas, dos jardins, dos túneis de acesso ao metro, da Praça Vermelha, está a cargo da Militsia - a pé, de chapéu indiscreto, a cavalo, de carrinho ou de carrão. Inibe! Inibe-nos ver transeuntes a mostrarem os seus passaportes àqueles tipos de farda!
Paralelamente a estes controladores da "ordem" há uma profissão curiosa que também visa controlar a "ordem". É uma profissão praticamente reservada a mulheres, mulheres gordas e não novas. Trabalham regra geral encaixadas num aquário de perímetro e altura pouco superiores ao seu próprio corpo. A diferença sobrante é ocupada por televisores de vigilância. Os aquários estão plantados em sítios estratégicos, excepcionalmente adequandos à sua primeira função: CONTROLAR.
No metro eis um à entrada na zona dos torniquetes, depois outro no final de cada escada rolante que desce. E como o metro tem várias entradas e várias escadas rolantes é vê-los, aos aquários, a proliferarem pelas entranhas do sub-solo moscovita.
Fora do metro também encontramos aquários com senhoras gordas encaixadas. Na estação de comboios, desta vez ao cimo das escadas rolantes!
Menos especiais, e por certo controladoras de segunda, são as não menos fortes senhoras que encaixam pernas e panças sob uma mesa. Pontuam-se nas entradas de edifícios públicos, e convenientemente nas entradas das instalações sanitárias públicas.
Estranhamente pondero sobre a necessidade desta "ordem" na dimensão de Moscovo. Haverá relação entre esta imposição e o sobrolho descaído dos moscovitas?

p.s- não há fotos, nenhum de nos se atreveu a disparar sobre os postos de controlo!

03 outubro 2005

12. Simpatia Moscovita

Estamos em Moscovo há mais de 24 horas e ainda não nos cruzámos com a Simpatia Moscovita. A única vez que fizemos sorrir alguém foi agora ao jantar, quando perguntamos a Senhora se podíamos pagar 130 rublos com uma nota de 500 (estão tontos ou quê??).
Nem mesmo o meu esforço em falar russo tem atraído atenções, o que pode comprovar a eficácia do meu conhecimento: ainda ninguém se riu na nossa cara!
Este registo carrancudo que paira sobre todos os que nos tem atendido, parece-me pairar também sobre muitos dos que connosco se cruzam. Bem sei que temos passado muito tempo no Metro e que este é um bom lugar para se ficar carrancudo. Mas mesmo cá fora, aos moscovitas pesa-lhes o sobrolho: quando se despacham a atravessar estas rodovias de 8 faixas; quando se sentam nos bancos do jardim e vão bebendo cervejas e acumulando as latas no chão; também tinha o sobrolho pesado o senhor que pescava no rio Moscovo, e o pai que puxava pelo braço a menina do balão; até as duas mulheres que apregoavam um qualquer livro de alguma religião o faziam de sobrolho pesado.
Talvez todos estes (o peão corredor, os bêbados, o pescador urbano, o pai, as pregadoras) tenham mais do que razões para terem o sobrolho descaído, e talvez seja eu que ande de radares alerta para os apanhar a todos.
Agora que já é noite é que me apercebo que a Simpatia Moscovita de hoje veio do Sol rasante que andou todo o dia a parecer que se estava quase a pôr. Frio? 23ºC!

11. Começou...

Começou o diferente, o inabitual, o estranho. Deixámos as rotinas domésticas para trás e entrámos de choque noutras rotinas: aeroportos, estações, quartos de hotel, horários, mapas, alfabetos...
Apesar da má fama, as viagens de avião com a Ibéria correram lindamente. Cumprimos horários e transbordos e chegámos a Moscovo à hora prevista, com bagagens e tudo!
O aeroporto de Domodedovo (um dos quatro que serve Moscovo) fica a 50 km do centro. Tomámos uma linha expresso de comboio até uma das estações centrais interligada com a rede de Metro. No final de uma das suas linhas periféricas encontrámos o nosso Hostel, Asia de seu nome. É um bloco de 15 pisos dos anos 70, muito gasto em com uma estranha organização. Aparentemente é um Hotel de 3 estrelas que subaluga um piso ao Hostel.
Na recepção, ao primeiro golpe de vista, disseram-nos - Reservation? Take elevator to 5th floor... e lá estava um sub-recepcionista, parco conhecedor de inglês que confirmou a nossa reserva. O Hostel aproveita a logística oficial do Hotel (pois voltámos à recepção principal para registar os vistos) e dá uso aos quartos mais estragados (mas limpos).
A prioridade da manhã seguinte foi comprar os bilhetes do transib até Irkutsk que parte nos dias ímpares. De volta ao centro, de Metro (uma maravilha Estalinista em mármore) dirigimo-nos à estação de Iaroslavki. Na bilheteira a Joana ganhou fôlego e abordou a primeira conversação importante em russo! Do meu ponto de vista correu bem (afinal saímos de lá com os bilhetes) mas foi uma troca fonética de alta voltagem. A Joana aconselhava calma ao outro lado do guichet (pensando que dizia -Fale devagar) e a russa respondia incompreensibilidades pelos altifalantes a altos berros... isto numa fila reservada a inválidos.
A tarde passámo-la a passear a pé. Era Domingo, estava sol e os Moscovitas aproveitavam os jardins e os parques ao largo do Kremlin enquanto os rigores do Inverno não chegam.
A Praça Vermelha estava também cheia de transeuntes, o que facilitou a nossa "incognicidade". Passo a explicar: a Praça Vermelha é local de assalto a turistas... por polícias. É verdade! Eles abordam-nos, pedem documentos, levantam problemas e exigem pagamentos in sito... subornos para compensar os magros salários.

teia de vidro partido à chegada ao aeroporto de Domodedovo; "da Ota para Lisboa" - linha expresso (45 min) do aeroporto até ao centro de Moscovo; o nosso hotel na periferia à beira do Metro

30 setembro 2005

09. Penso Rápido

Antes da saída há que saber dados técnicos sobre o que se vai encontrar. Clicando sobre cada uns dos ícones abaixo será mostrada a informação respectiva.

CLIMA_ temperaturas mínimas e máximas para cada uma das principais cidades onde planeamos chegar. Mais importante do que o frio é saber quantas horas de sol vamos ter. (Do frio tentamos escapar com roupas térmicas e forros polares; mas sem sol, não há foco ou projector de luz que nos ilumine as paisagens.) Apresentamos o primeiro dia de Outubro e o primeiro dia de Novembro. Para referência, no fim estão os dados de Lisboa.
FUSOS HORÁRIOS_ só pela Rússia passam dez horas diferentes. Na Mongólia e na China, apesar de existirem vários fusos, vamos viajar em zonas dentro do mesmo horário. Atenção: muda a hora em Portugal e também na Rússia, mas nem a China nem a Mongólia aderem ao sistema de poupança de luz durante o Verão.
CÂMBIOS_ três moedas diferentes. Ah! Não nos podemos esquecer de arrumar uma pequena máquina de calcular.

Estamos quase a começar a montagem do puzzle: empurrar todo o nosso equipamento para dentro das mochilas.

um CLICK para ver temperaturas um CLICK para ver fusos

29 setembro 2005

08. As Paragens III

CIDADE PROIBIDA

Se bem se lembram, o Kublai Khan da Paragem II terá começado a dar cabo do seu império quando fundou uma cidade que é hoje Pequim. Pois foi precisamente sobre o palácio de Kublai Khan que imperador Ming Yongle desenvolveu, entre 1406 e 1420, o rascunho da Cidade Proibida.
Situada no centro do chamado Império do Meio, na Cidade Proibida viveram 24 Imperadores: seres divinos, Filhos do Céu e mediadores entre o Céu e a Terra.
Tão inspirados, os Imperadores governavam o Império a partir deste microcosmo dourado de portas emblemáticas, pátios elegantes, pavilhões harmoniosos e passagens que soavam a gongos.
Mas apesar dos enormes 70 hectares da Cidade Proibida, os Imperadores não deixavam de estar isolado do resto do mundo e entre meia centena de eunucos, dezenas de concubinas, dezenas de milhares de criados, não havia Filho do Céu que conseguisse controlar a sua Cidade, quanto mais o seu Império. Por isto, os edifícios que hoje se podem visitar na Cidade Proibida datam quase todos do Séc.XVIII, trezentos anos depois das construções originais. Imaginem quantas não foram as pilhagens e invasões dos inimigos Manchus ou Japoneses ou quantos os incêndios postos por eunucos mais ou menos loucos!

Lê-se em mais do que um guia uma piadinha que agora vai passar poder ler-se aqui também. “Apesar de haver quem considere excessivo o preço do bilhete de entrada, a verdade é que está bastante mais baixo: de morte imediata passou para cerca de 60 Yuans!”

24 setembro 2005

07. As Paragens II

NÓMADAS DA MONGÓLIA

Genghis Khan “Governador Universal” foi coroado líder máximo das estepes da Mongólia em 1206. Depois de conseguir o feito de unificar as várias tribos Mongóis lembrou-se de atacar o Norte da China. Por aqui começou e daqui continuou. Da vez em que abdicou da luta em prol do eventual estabelecimento de trocas comerciais com um império vizinho, Genghis Khnan viu os seus emissários da Paz serem condenados à morte pelo inimigo. Conta-se que terá sido então que se escreveu GUERRA na sua missão de vida.
No séc. XIII o império Mongol dominava dois terços de todo o Mundo conhecido. A sua supremacia não se exibia na fundação de grandiosas cidades nem na preocupação da transmissão dos seus valores culturais. À passagem do exército Mongol todas as terras se desamanhavam, os animais guinchavam e as gentes desistiam de viver. Os militares Mongóis passavam, destruíam, matavam, extinguiam, saqueavam e... retiravam-se. Contra o Cristianismo nunca construíam, nunca se fixavam, só varriam, varriam e varreram até à morte de Genghis Khan, vinte anos após a sua coroação. Estavam na altura a desfazer a Polónia, missão que Ogedei, herdeiro e o terceiro dos seus filhos, veio a terminar. Seguiu-se a Hungria e entrando pela Áustria estava o exército já à beira de Veneza quando morreu o então líder, Ogedei. Todos os militares se montaram a cavalo, deram meia volta e foram participar na escolha do novo Grande Khan. O escolhido foi Kublai Khan, neto de Genghis Khan, pouco ligou à Europa preferindo reforçar o domínio sobre a China. Fundou a cidade que é hoje Pequim e aí estabeleceu a capital do seu império. Há quem diga que esta opção de “se estabelecer” terá sido responsável pelo declínio do império Mongol: abandonar a mobilidade de nomadismo em favor do conforto estático da cidade.
Contra a tendência do sedentarismo mundial, que para nós ocidentais está cada vez mais enraizada na lógica do planeta, o povo Mongol vive o nomadismo como uma atitude actual. Depois de 70 anos de Comunismo, vários Mongóis abandonaram as cidades para se dedicarem a pastorear as suas ovelhas. É a disponibilidade das pastagens que determina o seu percurso anual.
Habitam em “gers”, tendas circulares de feltro que num instante se montam sobre o lugar eleito e noutro instante se desmontam para sobre as costas de um camelo. São frescas no Verão e quentes no Inverno e têm preceitos próprios para uma devida utilização e organização. É assim que as paisagens da Mongólia se dizem não ser de ninguém.

22 setembro 2005

06. As Paragens I

Até à nossa partida queremos publicar 3 posts sobre as 3 paragens que talvez sejam capazes de melhor explicar esta viagem. Queremos deixar registada alguma informação técnica sobre estes locais que estamos convencidos a visitar. Registamos aqui dados objectivos, os iscos que nos atraíram e que nos criaram as expectativas (essas ficam no segredo dos deuses, não vá o diabo tecê-las!).
Atenção! Há um novo mapa no post de 28 Agosto 2005, O Plano

O OLHO AZUL DA SIBÉRIA

Oзеро Байкал (lê-se Óziera Baikál) significa em Russo Lago Baikal. É conhecido também por Pérola da Sibéria ou ainda Olho Azul da Sibéria. Mas não se trata de um dos nossos olhos arredondados. É antes um olho risinho, rasgado ao comprido no sudeste da Rússia. Um verdadeiro olho oriental!
O Lago Baikal é o lago mais profundo e também um dos mais antigos do planeta Terra, estima-se que tenha sido formado há 25 milhões de anos. Tem zonas com mais de 1600 metros de profundidade e em si guarda quase 20% de toda a água doce do planeta (lagos, lagoas, rios, ribeiras) e espécies de algas e animais que em nenhum outro lado se encontram. O Lago é alimentado por uns 300 rios e outros cursos de água mas apenas 1 rio sai do Baikal, o Angará, rumo a norte. A partir do final de Dezembro a superfície do lago gela e assim fica durante 4 meses.
Claro que um fenómeno destes tem-lhe associadas uma série de superstições relacionadas com os poderes mágicos das suas águas. Diz-se que mergulhar nele as mãos nos faz ganhar um ano de vida. Mergulhar os pés são mais cinco anos garantidos. Por esta ordem de ideias depois um mergulho de corpo inteiro, quem conseguir não ficar logo ali morto de frio, deve ganhar uns 25 anos à sua soma ! Aceitam-se apostas!!

21 setembro 2005

05. Vistos no Papo!

Cá estão eles no papo. Os três vistos arrumadinhos nos passaportes agora só à espera de apanharem uma carimbada! Ainda na esperança da chegada do último visto, o Russo, fomos pagar os bilhetes do avião. São uns bilhetes muito modernos chamados “bilhetes electrónicos”. No fundo são bilhetes que não existem: basta-nos estar no sítio certo à hora certa. Na agência de viagens, perante a minha incredibilidade ao ver que todos aqueles euros acabadinhos de me sair da conta se resumiam a três folha A4 banais, tentaram acalmar-me dizendo que “ora então, são bilhetes virtuais”. Espero que no check in não me venham também dizer que “ora então, o voo é virtual”. Vantagens destas modernices? Não há o perigo de perdermos os bilhetes (pois não, ninguém perde o que não tem). O pior é se perdemos estes A4 banais. Talvez seja melhor decorarmos as duas datas e as quatro horas, ou apontar isso nalgum lado.