23 dezembro 2005

56. O Fim



Ora aqui está em linhas o resultado da nossa empresa. A cor azul está tracejado o percurso da ida até Pequim, e a verde o que nos levou de volta a Moscovo. Sobrepondo este mapa ao que está no post ”O PLANO” verifica-se um cumprimento dos objectivos gerais propostos e a adição de uns extras fora do mapa!
As seis semanas revelaram-se longas sobre o ritmo do transiberiano e foi por certo devido a esta cadência calma que conseguimos o tempo necessário para cozinhar o relato da nossa viagem.

Encarámos este blog como parte intrínseca da viagem. Com a mesma determinação com que decidimos fazer Moscovo-Pequim de comboio, quisemos também publicar um blog com algo para além de notícias e fotos nossas. Afinal, corríamos o risco de embarcar na mais aborrecida das temáticas: as fotos das férias!

A tarefa de conceber-discutir-publicar os posts tornou-se tão importante como a de ir à estação comprar um bilhete de comboio para o destino seguinte. Roçámos o comportamento obsessivo quando, por vezes em esforço, nos obrigávamos a ultrapassar as dificuldades inerentes a um blog “em directo”.

Viajar tão intensamente como fizemos e, no final das noites, prestarmo-nos a procurar um posto público de Internet ou um Ciber-Café, gerindo as horas e as distâncias para regressar ao quarto, não foi fácil. Tirando alguns posts mais curtos escritos de improviso, a maioria vinha previamente manuscrita nos cadernos. Quando o “taxímetro” da Internet começava a pingar era o stress do aproveitamento ao máximo do tempo online: Quico a ditar e Jota no teclado. Técnica e tecnologicamente estávamos bem preparados mas ainda assim não se evitaram os conhecidos exasperos informáticos: - Oh não! Perdeu-se tudo!?! Isto está mesmo lento! O raio do teclado tem teclas pouco sensíveis! Não tem USB!?! O quê?!? Paga-se quanto pelo download?!


Talvez por andarmos assim, quase no fio da navalha, estivemos extraordinariamente sensíveis aos comentários que por aqui brotavam (por vezes foi com ansiedade que víamos aproximar-se a hora de “ir à net”).
Agradecemos com sinceridade às pessoas que enviaram comentários, assim como às que não comentaram mas que sabemos que nos acompanharam. Da mesma forma que, escreveram, pelo blog se sentiram a viajar connosco, também nós vos sentimos ali por perto quer nos comentários quer em mailes que nos enviaram.

Viagem completada, algumas contas feitas e chegou o momento de pregar o ponto final deste blog.
Declaram-se assim encerrados os relatos “De Moscovo até Pequim” no http://foradomapa.blogspot.com.
Até uma próxima!

15 dezembro 2005

55. Impressões sobre a Arquitectura Soviética

Impressões somente. Não mais do que isso. Aqui não há qualquer pesquisa ou estudo, apenas reacções epidérmicas e intuitivas a uma breve estada na Rússia e na Mongólia no Outono de 2005.
A arquitectura do período soviético (considerando as distinções que vão dos anos 30 aos anos 80 do séc. XX) está de tal modo afastada da realidade portuguesa e, em muitos aspectos, da europeia, que perturba. Distingo quatro tópicos de abordagem:

01.Urbanismo
Uma forte influência do “Modernismo – Carta de Atenas” parece caracterizar as zonas periféricas de expansão das urbes mais antigas e as muitas “novas” cidades soviéticas. O quarteirão da cidade tradicional é substituído por blocos de habitação colectiva e serviços (não sobre pilotis), separados por pracetas ajardinadas, alamedas e ruas desafogadas. Há um equilíbrio conseguido nestas relações: espaço construído/espaço vazio; verde/artificial; público/privado (neste caso…quase tudo é público). Pode ser uma opinião polémica, mas simpatizo com esta simplicidade. Há aqui uma escala humanista, apesar do ambiente, de certo modo, triste que por lá paira.
O caso do centro de Moscovo é distinto. Como já referi num post anterior, este está enormemente marcado pelo punho vigoroso de Stalin. As operações de saneamento urbano resultaram em edifícios quarteirão gigantescos (grotescos na sua maioria) e em auto-estradas urbanas completamente desumanizadas. É o paradigma da ostentação totalitária.

Kazan; Kazan; Ulaan Baatar

Moscovo: blocos na periferia; gigantes no centro
02.Arquitectura de Estado
O simbolismo soviético (materializado na estatuária, escultura, murais, etc) está inevitavelmente presente em todas as cidades Russas. A foice e o martelo, a revolução do proletariado, a figura de Lenine, ou a vitória na 2ª Grande Guerra são signos usados e abusados como caracterizadores dos espaços “nobres” das cidades. Moscovo, Vladivostok e Ulan Ude (a par de muitas outras presumo) têm mesmo uma praça pública perfeitamente equipada para as famosas paradas militares: bancadas monumentais e marcações no pavimento por onde os “tanques e os mísseis” desfilam.
A tendência para a monumentalidade e a consequente importação dos modelos clássicos são o tema forte dos edifícios de Estado (ministérios, municipalidades, etc). Esta interpretação estética é normalmente grosseira, não tanto ao nível das proporções, mas sobretudo na definição construtiva – betões, rebocos, metais, vidros, madeiras – são materiais rusticamente aplicados.
Desafortunadamente escolheu-se Grande em vez de Belo, Bruto sobre Delicado; embora por vezes sejamos surpreendidos com algo “fora do mapa”…

Barabinsk; Vladivostok; Moscovo: Praça Vermelha

Moscovo; Moscovo; Vladivostok

Ulaan Baatar

03.Habitação Colectiva
Standard é a adjectivação predominante. Os blocos habitacionais do tal “urbanismo soviético” aparentam volumetria, dimensões dos vãos, e organização interior semelhantes entre si (curiosamente a entrada das habitações é sempre feita pelas traseiras nas tais pracetas ajardinadas; as frentes estão reservadas ao comércio e serviços).
Construtivamente, o conceito é de qualidade e bem adaptado ao rigor do clima – estrutura robusta de betão, paredes de tijolo maciço de alta inércia térmica, janelas de madeira de caixilharia dupla, etc. O problema é a execução técnica que é péssima. O rigor geométrico é um terror – os degraus são, invariavelmente, um de cada tamanho por exemplo. Descuido? Falta de brio profissional? De fiscalização? De formação técnica? Não sei…. Li algures que o processo de industrialização russo impulsionado pelos Soviéticos eclodiu à pressa e, portanto, com fracas bases em operariado qualificado.
Refiro ainda o conceito de espaço comum, que aqui se afasta um pouco do que nos é habitual. Muitos destes apartamentos, para além de serem construídos pelo Estado e consequentemente alugados aos residentes, eram (e muitos ainda são) comunitários. Ou seja, os habitantes ocupam um quarto e partilham áreas comuns dentro do apartamento (instalações sanitárias, cozinhas e zonas de estar). Isto não invalida que estas e as outras áreas comuns (átrios e escadas interiores) não estejam quase que ao abandono. Faço um paralelo “irónico” com a ideia que tenho de alguns edifícios de habitação colectiva de Nova York, em que estas zonas interiores comuns são negligenciadas de cuidado (para não dizer vandalizadas), mas que, ao abrirmos a porta do apartamento, o luxo nos invade!
Destarte, e em resumo, penso que neste campo impera um funcionalismo e uma racionalidade que não posso deixar, mais uma vez, de valorizar.

Dalandzagad; perto de Ulan Ude; perto de Vladivostok

04.Serviços Comunitários
Na época soviética não havia apelo ao consumo. Daí o comércio dispensar montras. Uma pequena tabuleta por cima de uma porta opaca bastava para anunciar: loja de roupa, mundo das crianças, restaurante, hotel. Esta relação com a rua, ainda está muito presente, principalmente na Rússia mais profunda (em Moscovo ainda se vê sobre o néon da megastore Beneton um dístico: loja de roupa). Para o comum transeunte, por um lado é agradável, já que (por comparação com a China) não somos bombardeados com luzes saltitantes e megafones aos berros; mas por outro, torna-se constrangedor aceder a esses sítios que nada nos mostram do interior…para um estrangeiro não é tarefa fácil identificar um café na Rússia mais Siberiana.
Ao contrário do conceito dos State Department Stores (antigos centros comerciais estatais agora, na sua maioria, vendidos às multinacionais privadas), os Mercados tradicionais de produtos alimentares e roupa são muito idênticos aos nossos. Diferenciam-se pela temperatura interior. São, felizmente, aquecidos. Todavia, é de referir que nos menos 16 graus Célsius de Tynda se multiplicavam as tendas e os quiosques exteriores ao redor do mercado.
Talvez o elemento mais distintivo das cidades soviéticas seja a central termoeléctrica. Das grandes metrópoles como Moscovo ou Ulaan Baatar até às pequenas aglomerações urbanas do deserto de Gobi ou da Sibéria interior, todas são servidas de electricidade, água quente e aquecimento “centralizados”. Estes serviços são distribuídos através de característicos pipelines que nascem desses gigantes industriais implantados, na sua maioria, bem próximo dos centros urbanos. Consumindo carvão ou diesel, são chaminés que bufam, sem parar, um fumo espesso que pesa sobre a qualidade do ar (para não falar na libertação de CO2 na atmosfera). Não admira que a Rússia fuja do protocolo de Quioto. Não se adivinha fácil reformar estas indústrias tão poluentes e, ao mesmo tempo, tão necessárias ao suporte de vida naquele clima extremo.
É complicado tomar uma posição sobre este assunto. Os sovietes, dentro do caos ecológico que resultou das suas acções, tiveram o mérito (ou o demérito…não sei) de humanizar regiões, que até aí eram impróprias para consumo humano. O que é facto é que estas estruturas, apesar dos esforços de manutenção que lhes têm prolongado a vida, algum dia vão ceder. E aí como será? Se não houver capacidade económica de renovação…é o abandono?...êxodo?

Tynda

Ulaan Baatar; Moscovo; Moscovo

Em resumo
Soviete em russo significa conselho. Conselho dos delegados dos operários, camponeses e soldados… As relações entre a arquitectura e os regimes políticos foram e são, em tantos casos, muito estreitas. Marcam épocas de uma maneira única. A arquitectura é um registo histórico que, à posteriori, acabamos sempre por valorizar...mesmo que por agora ainda as desprezemos.

perto de Arvaikheer; radio telescópio perto de Vladivostok; Tynda: estação de caminhos de ferro

13 dezembro 2005

54. Concluindo

Passaram quatro semanas sobre o nosso regresso e, desde aí, tenho-me pressionado a postar este “remate” pessoal. A princípio, ao ver passar o tempo, pensava estar a ganhar distanciamento e reflexão. Agora, já estou tão preso às tarefas portuguesas (laborais e não só) que quero apressar a digestão e o despejo, antes que os paladares se evaporem…

Pessoalmente não tinha, ao contrário da Jota, sonhos expectantes acerca deste empreendimento. Talvez por isso não tenha sofrido do mal da desilusão, do qual que ela deixa transparecer um pouco no seu balanço. Quando procuro um estado de espírito que resuma esta experiência, penso que sinto o mesmo de outras viagens que fiz. Penso que ganhei riqueza. Não da que se ostenta em vestes ou adornos (realmente podia ter trazido um casaquito de peles da Sibéria…), mas da outra, da interior, da espiritual! (céus, que despudor de expressão!). Contrariando o estilo esotérico da última deixa atrás empregue, prefiro re-frasear: acho que fiz um upgrade na minha base de dados.

Não raras vezes lamento a minha fraca capacidade de armazenamento cerebral, ou, por outras palavras, a minha memória é como um tacho com fugas que perde muita da água que lá é depositada. Contudo, o que é facto é que a água das viagens é dirigida para um tanque (subsidiário do tacho) “estanque até ao infinito”… Surpreendo-me a mim próprio quando remonto a memória dessas ocasiões. Talvez seja isso que procuro quando viajo, dirigir mais água para esses tanques que nada perdem…

Deixando estas visões altamente egocêntricas, debruço-me agora sobre os nossos actos de altruísmo. “Oops”! Não vejo grandes méritos nesse campo. Não fizemos caridade. Aos pobres nómadas mongóis oferecemos vodka, cigarros e rebuçados (que tragédia de oferendas!). Fomos, por mais que nos custe dizer, turistas... e destes, o melhor que se pode dizer é que contribuem com alguma coisa para o pib dos países visitados. Mas não deveria ser o sector turístico uma parede mestra da economia mundial neste período de globalização? Turismo por oposição a terrorismo não me parece mal… e nem são coisas que não se “toquem”.

Agora que terminei com estas sentenças pouco específicas desta viagem em particular, prefiro finalizar esta conclusão com uma série de flashes mentais soltos, uma desgarrada resultante da (des)organização do tanque de retenção de memórias Rússia/Mongólia/China:
(…) Sou um privilegiado, mas abomino mordomias (…) A rotina de viajar rapidamente se nos entranha, todavia não o gostaria de fazer durante muito tempo seguido (…) No mercado de casacos de pele em Moscovo, um cliente Kazac experimentava um modelo ao espelho enquanto o vendedor o assistia. Os gestos de um e de outro pareciam convencionais, mas impressionaram-me sobremaneira – bruscos, teatrais, agressivos, assustadores (…) Na 1ª noite com uma verdadeira família nómada, quando estávamos todos (sete pessoas alinhadas em paralelo umas às outras) a tentar adormecer no ger ainda quente; ouvíamos, como que um embalar, os sons calmos de uma conversa de fim de dia entre o casal idoso anfitrião (…) Ai a força dos nómadas, como é possível suportar tanto frio de noite, e nós só ainda estamos a meio do Outono (…) Ai a força dos animais, como é possível suportar tanto frio de noite sem um abrigo, e tão parco que é agora o pasto (…) Nos templos Budistas a entrada é livre, mas somos pressionados a fazer doações monetárias. Provoca-me desagrado e estranheza. Tanta devoção ao culto figurativo da imagem do Buda é o caminho para a iluminação? Onde está o despojamento que levou Sidharta a abdicar do trono da antiga Índia? (…) Grande Muralha. Doidos, é de doidos! É de arrancar os cabelos! Há, no entanto, uma ironia interessante - esta arma de guerra nunca serviu este fim, foi principalmente uma via de comunicação, uma arma mais pacífica (…) Que vergonha sinto agora de ter feito semelhante proposta a uma pobre “mercadora” Mongol na Rússia. Influenciado pelos hábitos chineses, tentei regatear com ela o câmbio de 5000 tugriks. Enganei-me nos dinheiros e fiz finca-pé por um valor 10 vezes maior que o real (…) Houve momentos em que o alarme das doenças espreitou. Nessas alturas, estar em viagem torna-se um empecilho. Mas há que reagir sempre, seja à procura de medicamentos, seja na gestão dos esforços e dos descansos (…) Gostei de ser contributor no foradomapa. Obrigou-me a estudar, a pensar e a escrever…espero não ter sido uma maçada (…)


Sibéria; Gobi; chinesa cuja profissão é acompanhar visitantes da Grande Muralha (na secção menos turística de Jinshanling, a 110 km de Pequim) durante kilómetros a fio, para desta forma lhes ganhar confiança e vender uma ou duas ocasionais garrafas de água...por dia

03 dezembro 2005

53. Bibliografia de Referência

Durante seis semanas acompanhámo-nos um ao outro, e juntos partilhámos o peso de outros companheiros – os livros e, sobretudo, os seus autores. Estas pessoas de papel e tinta carregavam-nos as costas mas alimentavam-nos o espírito. Com o lúdico, o poético, o histórico e a preciosa informação prática, viajámos ainda mais!

Guarda minha fala para sempre, Ossip Mandelstam, Assírio e Alvim
Poeta russo, falecido em 1938 num campo de deportação soviético em Vladivostok, Mandelstam é aqui editado pela primeira vez em Portugal. Compilado e traduzido por Nina Guerra, contém uma biografia resumida de Ossip e uma selecção de textos em prosa e poesias suas (bilingues).
Quico

Planisfério Pessoal, Gonçalo Cadilhe, Oficina do livro
Palavras para quê? Por esta altura, o Cadilhe mais revesso à realidade portuguesa, já deve ser best-seller, mainstream. É engraçado como se cai nas graças de quem, implícita e explicitamente, tão fortemente se critica. Da nossa parte, sentimos admiração e carinho. Por ser português, por se desafiar a viajar, a sentir, a ler, a escrever, a trabalhar. Sim, o Gonçalo trabalha. E é dos “bons” (palavras de bloguers esforçados com conhecimento de causa)!
Quico

O Mandarim, Eça de Queirós, www.bibvirt.futuro.usp.br
Do Eça não gostei de ler “Os Maias” por obrigação há uns quinze anos atrás (!). O Mandarim surpreendeu-me de tal forma que estou convencida que agora vou gostar de os ler. Fantasia, espiritualidade, suspense, amor, sexo, acção, fé e uma bonita moral no cair do pano (pelo meio uma descrição de Pequim no final do século XIX). Eu cá não apertava aquele botão mágico…
Jota

Mongólia, Bernardo Carvalho, Cotovia
O brasileiro Bernardo Carvalho recebeu uma bolsa da Fundação Oriente, viajou dois meses na Mongólia e pariu esta obra. Interessante trama baseada num narrador participante e em diários de duas outras personagens, este livro conta uma história e ao mesmo tempo retrata a realidade da Mongólia actual. Contém ainda crónicas incríveis acerca de Xangai, Pequim e sobre a literatura Chinesa do séc. XX. Lemo-lo depois da nossa estada no país das estepes e tudo nos soou familiar (até o motorista tinha o mesmo nome do nosso). Tão familiar que, apesar da sôfrega leitura, foi difícil deixarmo-nos embrenhar naquela ficção na qual conseguíamos facilmente destacar a realidade “escolhida” pelo autor.
Jota e Quico

Uma viagem de muitos quilómetros começa por um passo, Ana Cristina Alves, COD
O livro tem um conjunto de textos originalmente publicados no jornal “Hoje Macau” onde se desvendam vários aspectos da cultura chinesa: mitos, relacionamentos, simbologias, pensamentos, posturas. Por mais simples que estes relatos nos sejam apresentados acabam todos por se tornar em histórias fantásticas e mirabolantes, tão diferentes que são das que conhecemos. Tomando à letra o adágio que dá nome ao livro, também ainda só demos o primeiro passo na viagem que é a leitura deste livro. (só chegámos à página 50!)
Jota

1ª e 2ª secções do capítulo I das Memórias de João Freire
Meu pai (mimetizando o tom coloquial e ao mesmo tempo terno da peça em referência) facultou-nos, gentilmente, as primeiras provas deste seu projecto em elaboração. “A família” (de média burguesia Lisboeta) e “o bairro” (da Graça nos anos de 40/50), são descritos de fio a pavio num exercício misto de memória de infância e reflexão consolidada. Destaco a riqueza da linguagem, quase arcaica aos ouvidos de hoje, mas muito contemporânea à época a que se reporta. (A Joana gostou em especial da descrição que localiza no terreno todas as sete colinas de Lisboa).
Quico

Tran Siberian Handbook, Bryn Thomas, Trailblazer Publications
Mais valioso pelas informações e curiosidades históricas do que como guia prático (nível em que perde claramente para o Lonely Planet). Edição de 2003, ou seja uma desactualização significativa, sobretudo em relação aos horários dos comboios e aos preços indicados (refira-se que a inflação russa tem rondado os 20% ao ano).
Quico

Russia & BelaRus, AAVV, Lonely Planet Publications
Padece da mesma desactualização do Tran Siberian Handbook. Adivinham-se os preços reais multiplicando os valores indicados por dois. É, todavia, excelente na quantidade e qualidade de informação que fornece num espaço tão condensado. Superioriza-se aos rivais Let’s Go e Rought Guide na bagagem histórica mas, na oferta de opções budget, talvez não.
Quico

Mongolia, Michael Kohn, Lonely Planet Publications
Não fosse a nossa guia Burla (ver post Extratour Mongólia) ser uma inépcia em informações histórico-culturais, este guidebook teria sido completamente dispensável. Isto porque, fora de Ulaan Baatar, estamos nas mãos dos motoristas. E como não há estradas, apenas pistas, as referências geográficas e os mapas são “mistérios” indesvendáveis. Estamos à mercê deles, quer queiramos quer não…
Quico

Beijing, Damian Harper, Lonely Planet Publications
Edição de 2005. Não lhe testámos a hotelaria, mas no resto funcionou bastante bem. Estranhámos um pouco a organização de city guide, substancialmente diferente da dos guidebooks dos países.
Quico

Russian, a Rought Guide phrasebook, Lexus Ltd
Noções de Gramática, Dicionário Inglês-Russo onde se diluem “Diálogos Típicos” e Diccionário de Comidas e Bebidas. Da gramática e dos diálogos senti alguma insuficiência na diversidade. Os dicionários de Comes e Bebes foram uma bela ajuda.
Jota

Mongolian phrasebook, A. Sanders, J.Bat-ireedui, Lonely Planet Publications
Este phrase book é de facto mais um pequeno guia de sobrevivência. Para além de ser o único guia em língua Mongol vem acompanhado com uma série de informações sobre hábitos, preceitos e curiosidades Mongóis e Nómadas. De todos foi aquele a que menos recorremos para comunicar.
Jota

Mandarim Chinese, a Rought Guide phrasebook, Lexus Ltd
Do mesmo editor que o phrase book de russo, este guia apresenta praticamente a mesma estrutura. Ao contrário do que sentimos com o guia russo, aqui a sensação foi de “excessivamente pormenorizado”. Este facto não se deve de todo à informação contida em cada guia mas antes ao meu conhecimento de Russo e à nossa total ausência de “ouvido treinado” para os sons chineses. Foi determinante a presença das palavras escritas (também) em caracteres Chineses para que a conversa se processasse através indicadores que apontavam palavras!
Jota

Com o decorrer da caminhada fomos aliviando a carga, deixando-a noutras mãos, reciclando-a. E assim chegámos ao final mais leves de peso carregado nas costas, mas com uma lista maior de livros que queremos vir a ler.

02 dezembro 2005

52. Falar Russo (e também Mongol e ainda Mandarim)

Era uma das minhas maiores expectativas: como é que afinal nos íamos conseguir desenvencilhar na comunicação com os russos? que utilidade iriam ter os meus dois anos de russo académico?
Depois de umas dificuldades iniciais, a operação da compra do primeiro bilhete de comboio veio confirmar, de uma vez por todas, que o assunto não ia ser nada fácil. Eu armada de um russo tosco nada podia fazer contra arrogância com que me respondiam e corrigiam as minhas frases.

(segue-se um parênteses técnico após o qual voltaremos à saga da viagem)
A dificuldade em montar uma frase em língua russa prende-se com o caso dos “casos”. Em português temos uma ordem obrigatória para arrumar as palavras dentro da frase. É esta ordem que nos permite apontar quem é o sujeito e qual é o complemento. Por exemplo: Jota vê Quico. Para nós aqui é claro quem é que vê quem, precisamente porque a regra obriga a que o sujeito apareça antes da acção que vai praticar, e o complemento directo depois da acção de que está a ser vítima.
Ora, os Russos não têm ordem obrigatória para a estrutura das suas frases mas claro que têm outra solução para saber afinal quem é que vê e quem é que está a ser visto. Aos olhos russos Jota vê Quico será uma frase que não faz sentido porque, para eles, esta frase tem dois sujeitos e não se entende quem faz nem que sofre a acção. É então que recorrem aos “casos” ou seja dão marteladas especiais às palavras que não desempenham a função de sujeito. Assim, o Quico como vítima da acção vai aparecer martelado e a frase fica qualquer coisa como: Jota vê Quicá; ou então, trocando a ordem que para os russos é irrelevante: Quicá vê Jota. E em ambas as frases quem vê é a Jota e que é visto é sempre o Quico.
Bem, a lógica é outra mas faz tanto sentido quanto a nossa. O que dói nas marteladas é que as há de todas as formas e feitios e que devem ser dadas nas alturas indicadas, ao género e número indicados. Por exemplo se fosse Quico vê Jota, a martelada que se dá na Jota seria outra porque a Jota é feminina. A frase ficaria Quico vê Jotú ou, claro seria possível, Jotú vê Quico. E se a acção não fosse ver mas sim, por exemplo, conversar com, as marteladas ainda teriam outras variantes.

(e de volta)
Acusei logo cedo a pressão de estar frente ao russo a pensar na martelada que ia ter de dar naquela frase, a descobrir de que tipo era a martelada que ele tinha acabado de dar e isto tudo sempre a ver se a minha martelada não saía ao lado e não me acertava em cheio nos dedos!
Senti por diversas vezes, entre as pessoas com que estabelecíamos comunicação para que nos fosse prestado um serviço, uma arrogância em resposta ao meu esforço em falar na língua deles. Caíram-me em cima olhares de censura felicitando-me pelo atrevimento em chegar ali e encetar conversa com aquele meu tosco russo (como se toda a gente aprendesse russo em qualquer país do mundo!). E eu a pensar que levar na manga mais do que as palavras básicas seria uma alegria para os russos e um trunfo de simpatia garantida!

Por outro lado, os relacionamentos privados foram bem mais facilitados a partir do momento em que ficava esclarecido que, apesar do meu ar, afinal eu não era Russa. Era uma sorte para nós eu conseguir entendê-los, mas também era uma sorte para eles porque para além da língua mãe poucos foram os apresentaram alternativas. Cheguei até a receber elogios ao meu “bom russo” mas confesso que não terão sido muito sinceros (pelo menos não o foi aquele que surgiu depois de duas frases banais de cumprimento).
Apesar do encontro inesperado com estas dificuldades foram determinantes os meus conhecimentos. Cumprimos todas as tarefas: comprámos todos os bilhetes, apanhámos todos os comboios; não comemos nada que não quiséssemos; não andámos perdidos sem o querer; lemos nomes de ruas, de paragens de metro, de estabelecimentos comerciais (o que aqui é muito relevante porque não há montras nem janelas abertas por onde se possa descobrir o aqui funciona lá dentro).

Se na Mongólia tivemos o privilégio (?!!) de andar de guia intérprete ao lado e conseguimos não nos desorientar (até porque o alfabeto usado na Mongólia é o Cirílico – o mesmo da Rússia), na China, em Harbin, foi ímpar a sensação que experimentámos ao procurar um hotel naquela cidade a meio da noite. Munidos de uma planta pouco rigorosa conseguimos chegar à rua que nos PARECEU ser a que nos interessava, mas no meio daquela tralha luminosa e pisca-pisca dos néonnéoneses publicitários não havia nenhum “H” nem nenhum letreiro que não estivesse em chinês. Alguém que passava, ao ver-nos sem olhos em bico e de olhar perdido, “empurrou-nos” (com alguma dificuldade) para a porta imediatamente atrás de nós enquanto sorrindo, e acenando, juntava as duas palmas da mão, as colocava sob a orelha e pendia a cabeça em jeito de “dormir”. Acabámos por entrar mas nem lá dentro acreditámos ser aquele o Hotel que procurávamos. À esquerda um mini cabeleireiro, ao fundo um balcão de 5 metros de comprido, ao nosso lado uma chinesa de quimono vermelho e pantufas peludas e, no átrio que antecedia o balcão, aquários com peixes do tamanho de peixes de mar! Obviamente a situação não melhorou quando, sem nos deixar chegar ao balcão, a menina do quimono e das pantufas, nos pediu que nos descalçássemos e nos fez chegar aos pés um par de chinelos de plástico! No final sempre se tratava de um hotel chinês onde apesar de tudo se alugam quartos. Apontando para os símbolos do guia de conversação, trabalhando a mímica e falando português, conseguimos perguntar o preço, pedir para ver o quarto antes de fechar negócio e, mais tarde, reclamar o facto de uma família de baratas partilhar o nosso quarto sem participar na despesa!

Saber ler e falar Russo foi imprescindível para “resolver assuntos” e conversar nos comboios sobre Portugal ou sobre a nossa vida (temática predilecta dos russos: se somos casados, se não temos filhos e porque é que não temos filhos, onde trabalhamos e quanto ganhamos). De Mongol aprendemos a cumprimentar, a agradecer e a desejar boa noite e, de resto, deixámo-nos levar por aquela guia tão peculiar que connosco comunicava menos do que os olhares dos nómadas. Na China vivemos um pouco protegidos no apartamento do Gustavo mas foi inevitável a agradável sensação de perdidos, ou melhor de “abreviados”, quando tocava a transmitir o que quer que fosse recorrendo a gestos básicos e universais!

No fundo, continuo a achar que o sucesso da comunicação depende da inteligência dos intervenientes que se reflecte na capacidade de usar o sentido de abstracção para que, por momentos, se libertem das regras do seu código habitual e fiquem aptos a captar novos sinais.



a importância de saber ler cirílico: onde estamos? na Praça Vermelha!; explicações de um Russo sobre "como viajar"; edifício e outdoor: modernidades em língua mongol; duas curiosidades Chinesas: uma menina a quem davam dinheiro (a sua história nunca deveremos vir a saber qual é); e na última imagem: consultando o nosso phrase book o chinês vai ficar a saber se viajamos ou não em lua de mel

17 novembro 2005

51. Balanço no Baloiçar do Avião

De regresso! Desta vez trata-se de um ANSIADO regresso: por terem sido seis as semanas que passaram desde que deixei a minha parte de Santarém e de Lisboa; por me ter sido delicado lidar com a arrogância pública dos Russos e pela dificuldade em lhes arrancar uma simpatia; e porque está agora cumprida a tarefa a que nos propusemos.

No banco atrás do meu, tagarela aguda uma Russa há mais de duas horas que, enquanto se tenta encaixar no seu espaço, dá coices nas costas da minha cadeira; o russo da nossa esquerda dorme há mais de duas horas – nem comeu; à direita, do outro lado da coxia, está um moderno casal duo-étnico (hispano-russo), e duo-etário (35-50). Apetece-me tanto parar de ouvir este russo dos niets, do kaniéstna, do celucháio vásse. Largar-me desta superioridade com que se nos dirigem, seja com as suas palavras a mostrarem que se estou na Rússia tenho de saber Russo, seja com os seus movimentos rudes e deseducados que ora me empurram ora me passam à frente seja em que fila for.

Chego ao fim desta viagem com umas quantas interrogações sobre aquela que era uma das minhas maiores certezas: VIAJAR, SEMPRE! E se for para um país onde nenhum turismo é bem-vindo? (onde não existem postos de turismo nem se vendem postais ilustrativos do país?); e se for para um país onde um estrangeiro não é especialmente bem tratado, onde aliás as pessoas não se tratam bem umas às outras? Afinal não são só as doenças, a miséria ou a guerra que justificam as escolhas para um país a não explorar.
Foi esta uma viagem difícil. Umas férias emocionalmente cansativas quer pelo confronto constante com culturas diferentes, quer pelas decisões que tivemos de tomar por vezes tão às cegas. Fisicamente também conhecemos novos limites: de frio, de higiene, de sonos trocados pelos oito fusos horários que atravessámos por terra. Mas entre as adversidades tantas novidades, tantas imagens quando fecho os olhos. Pego nas 3 Paragens que orientaram a nossa viagem:

Primeira Paragem, Lago Baikal. Conto sobre a solidão e o silêncio deste lago. Emocionei-me sem esperar e de forma descontrolada das duas vezes em que me cruzei com ele. É um ser vivo, um gigante que respira manso e que espera. A ilha de Olkhon deita-se ao lago de muitas formas e feitios: terra árida, escarpas rochosas, praia de areia, praia de seixos. A limpidez da água e as suas margens despidas de vegetação foram uma surpresa.

Segunda Paragem, Nómadas da Mongólia. Dormimos com nómadas, usufruímos da sua hospitalidade e retribuímos com a, tão por eles desejada, nossa presença. Ficámos na boca com o sabor azedo do leite das suas cabras e camelas, no corpo tivemos a experiência do gelo da noite e nos sacos de cama o cheiro à carne gorda do borrego. Mas a ideia de liberdade que associava ao nomadismo esclareceu-se: não há vida mais dependente das rotinas do que a vida dos nómadas. Todos os dias a mesma tarefa, todos os anos a mesma busca pela sobrevivência. Os ritos sociais são rígidos e desempenham a função de linguagem universal numa forma de vida aparentemente tão liberta de influências externas.

Terceira Paragem, Cidade Proibida. À cidade de Pequim tirámos-lhe as medidas, espreitámos-lhe os Hutongs, a Cidade Proibida, palácios, parques, comemos-lhe dumplings, entrámos em mercados frenéticos, subimos-lhe a parte da muralha e regozijámo-nos com os chineses em Pequim. É uma cidade grandiosa e grande como nenhuma outra. Onde ainda não é grande em breve o será. A febre dos Jogos Olímpicos contamina gentes e locais e os seus ímpares comportamentos sociais contaminaram-me a mim!

(adenda às paragens inicialmente estabelecidas)
Quarta Paragem, Sibéria em movimento. A reentrada na Rússia levou-nos ao encontro com mais rudez mas trouxe-nos finalmente alguma simpatia sincera. Ao percorrermos a Sibéria, ao longo de uma semana e à velocidade constante do comboio, ganhámos no corpo uma perspectiva da sua dimensão que não teríamos de qualquer outra forma (e que julgo nunca teremos em qualquer outro lugar do mundo). Afinal… quantos quilómetros vão de Vladivostok a Moscovo pelas linhas brancas da Sibéria?

Ai ai, o Transiberiano e o Baikal dos meus sonhos… Saciei esta vontade que por aqui andava há anos. Ainda bem que não deixei ficar este sonho mais tempo debaixo do meu travesseiro. Quero outro mas, atenção, agora quero um que seja menos cego! (bem, também já fiz os trinta!)


a última vista sobre o Baikal que começava a gelar; típicas montanhas da Mongólia; faltam dois anos mas já se vive o olimpico em Pequim; Sibéria só

15 novembro 2005

50. Algumas adições

Publicámos hoje um novo post "Pato à Pequim" (que no fundo é uma tragédia em dois actos) e colocámos fotos nos antigos "Fim da Linha", "Improbabilidades em Vladivostok", "Pequim-Harbin-Suifenhe-Grodekovo-Vladivostok", "A Nova Era", "Os Hutongs", "Eles choram tao mal", "Incivilidade Total?".
Lutando para reengrenar na nova dimensão alfacinha, estamos a preparar novas publicações para breve.
Obrigado pelos últimos comentários que nos dão as boas vindas!

13 novembro 2005

49. Terminou...

Terminou a viagem.
E agora o diferente, o inabitual, o estranho é a realidade que bem conheciamos mas que a intensidade do que vivemos pareceu apagar...
A Ibéria voltou a operar dois vôos óptimos que nos colocaram no território Português em 7 horas! Este sábado foi, para não destoar do resto desta viagem, um dia intenso. Levantámo-nos às 6 das manhã na hora de Moscovo e deitámo-nos às 3 da manhã na hora Portuguesa – 24 horitas sempre alerta!
O jet-leg vindo do Oriente é, supostamente, mais suave. Prolongar os dias, adiando o dormir, é mais fácil do que encurtar a jornada, obrigando a mente a "arrochar" mais cedo do que o corpo pede. Na teoria é assim. Até a certo ponto confirmamo-la. Não custa deitarmo-nos tarde, o problema é quando o nosso despertador biológico nos faz acordar com insónias às 6 da manhã.
Nesta confusão fisico-mental continuamos a saga blogger-foradomapa por mais um tempo... de actualizações, absorções, reacções e conclusões!


à partida a mesma teia de vidro partido da chegada; às dezoito horas em Domodedovo; às vinte e três horas autoretrato na Portela

11 novembro 2005

48. de volta a Moscovo

Chegámos pelas quatro da manhã a Moscovo. Estão zero graus mas como eles dizem "eta tiplo" ("está temperado"). Depois de cinco dias no comboio hoje passeámos por todo o lado e amanhã ainda temos a manhã para gastar os últimos cartuchos.
Em breve chegaremos aos 15 bonitos graus da cidade de Lisboa.
Temos saudades!

47. Transiberiano

A interpelação jornalística…
Em Pequim, no Templo do Céu, quando chocámos com os jornalistas portugueses da Agência Lusa (ver post eles choram tão mal), um deles, ao saber que tínhamos vindo de comboio desde Moscovo perguntou-nos se o transiberiano ainda é o que pensamos. Respondi-lhe, em jeito de negação, que era o transporte popular russo.
O apelo à memória colectiva contido na expressão "o que pensamos" intrigou-me. Se "o que pensamos" é num expresso do Oriente carregado do requinte e glamour do princípio do séc.XX onde o bojudo Poirot se balança entre as luxuosas cabines e a carruagem restaurante, então, a minha entoação negativa foi acertada.
Os inúmeros comboios que atravessam hoje a Sibéria carregam com os russos que não tem possibilidades económicas para se movimentarem de avião (a maioria).
A rede nacional ferroviária é autenticamente a espinha dorsal no território do maior pais, em área, do mundo. Carga e passageiros a linfa. O seu domínio sobre o sistema rodoviário é facilmente estendível. As longas distâncias, a neve, e as baixas temperaturas (até aos -60 graus Celsius) do Inverno siberiano são, tanto para condutores como para veículos, terríveis óbices ao seu óptimo funcionamento. Os comboios estão aquecidos, o tempo passa-se a dormir (todos os lugares são convertíveis em cama), e a sua mecânica (carris, locomotivas eléctricas, caldeiras a carvão) está melhor adaptada ao rigor invernio do que, por exemplo, os motores de arranque ou os travões hidráulicos dos automóveis.



Um pouco de história…
A decisão de avançar com a construção de uma ferrovia que unificasse Este-Leste a Rússia foi tomada em 1886 pelo Czar Alexandre III, 50 anos após a inauguração do troço Moscovo-São Petersburgo (a primeira linha ferroviária de usufruto privado do Czar Nicolau I). A construção, em diversos sub lances, começou em 1881 e ficou concluída 10 anos mais tarde. Nesta primeira fase a ligação efectuava-se pela Manchúria (território Chinês) devido às dificuldades levantadas pelo terreno acidentado da região a Oeste do Lago Baikal (só em 1916 é que ficou completa a linha em território Russo).
Talvez a já referida memória colectiva ocidental tenha tido origem na divulgação que a Rússia imperial fez da sua obra na exposição universal de Paris em 1900. A alternativa ferroviária ao canal do Suez para chegar ao Oriente foi apregoada carregada de luxos. As carruagens da companhia Belga "Wagon-Lits" ofereciam casas de banho em mármore, restaurante com aquários cheios de peixes vivos, pianos-bar, ginásio, cabeleireiro, estúdio de fotografia e uma carruagem igreja. Um contraste "interessante" com as condições dadas aos construtores da linha (a maioria exilados em trabalho forçado muitas vezes pago com a morte).
Durante a guerra civil de 18-21, a resistência dos Russos Brancos à revolução Bolchevique foi recuando de Este para Oeste seguindo a linha do comboio, o que obrigou, à posteriori, a grossos esforços de reconstrução por parte dos Soviéticos.
No período da Segunda Guerra Mundial, a ferrovia foi igualmente importante. O êxodo de Russos Europeus para a Sibéria efectuou-se ao longo das cidades e aldeias servidas pelo comboio, e este foi essencial no transporte de equipamento militar às tropas russas.


o transiberiano em Krasnoyarsk; o transmongoliano em Ulaan Baatar; a linha BAM em Tynda

No presente…
Actualmente, o transporte público mais importante da Rússia organiza-se por números crescentes mas decrescendo em importância e consequentemente em qualidade. Passo a explicar: Os comboios nº1 e 2 (Rossia) asseguram a ligação principal mais directa Moscovo-Vladivostok e vice-versa. Dai para cima é sempre a piorar. A partir do número 900 e tal os comboios são correios ou de carga (na ligação que fizemos entre Komsomolsk e Tynda o número do comboio era o 963!).
O transiberiano hoje é uma linha totalmente electrificada, ao contrário da linha BAM e do transmongoliano, que ainda funcionam com locomotivas a Diesel.
As carruagens são, na sua maioria, construídas na ex-RDA nos anos 70/80. São extremamente sólidas, de boa construção, e apesar do uso intensivo continuam em boas condições de utilização.
Existem três classes de conforto. SPALNY VAGON (primeira classe) - compartimento de duas camas; KUPE (segunda classe) - compartimento de 4 camas; e PLATSKARTNY (terceira classe) - carruagens abertas, com corredor excêntrico deixando, entre divisórias, quatro camas transversais de um lado e duas longitudinais do outro. Ou seja, num espaço equivalente, a primeira classe aloja duas pessoas, a segunda quatro e a terceira seis (densidade que obviamente se reflecte no uso da casa de banho).
Todas as carruagens tem em cada extremidade uma básica instalação sanitária (sanita e lavatório) e dois compartimentos onde se pode fumar (as zonas de entrada -não aquecidas). Se num dos extremos se localiza o caixote do lixo comum, no outro encontra-se o insubstituível samovar (caldeira com água a 98 graus essencial para a alimentação) e as cabines das duas providnitsas (personagens habitualmente femininas que representam a lei, a ordem e a limpeza nas carruagens).
O emprego de providnitsa é, digamos, oscilante. Oscila entre a dignidade de uma aperaltada farda que, em sentido, controla no cais a entrada dos passageiros nas carruagens; e o serviçal avental que, debruçado, varre, aspira e esfrega toda a espécie de imundices do chão e das sanitas deste seu reino.
A única carruagem excepção às já descritas é o Vagon-Restaurant. Metade cozinha, metade mesas de 4 assentos, serve as refeições diurnas tradicionais. Está invariavelmente vazia, já que o grosso dos clientes viaja de comboio para poupar dinheiro e não para o esbanjar em restaurações dispendiosas (considerando as alternativas, que são: trazer a própria comida ou abastecerem-se nas inúmeras vendedoras de cais, aquando das paragens nas estações).
Posto isto, refira-se que os bilhetes Platskartny são os primeiros a esgotar, que quem compre Kupe pensando que irá ter a sorte de viajar sozinho no compartimento está bem enganado, e que da primeira classe não teço comentários por falta de experiência própria.


segunda Classe: Kupe


terceira Classe: Platskartny


actividades no cais: providnitsas, babuschkas e abastecimento de carvão

Aos nossos olhos…
Aos nossos olhos viajar de comboio, por regra, é bom. Aprecia-se a paisagem numa cadência interessante, tem-se uma certa liberdade de movimentos corporais, e não se desafia a gravidade. Viajar cinco dias em Classe Platskarny no nº 75 Tynda-Moscovo é... positivo.
Na bilheteira hesitámos entre a segunda e a terceira classe: - vamos em kupe e arriscamos a privacidade de um compartimento partilhado (sabe-se lá o que nos calha em sorte) ou pagamos menos de metade e viajamos à russa pura e dura? PLATSKARTNY, PAJALSTA! Só estavam disponíveis duas camas superiores, o que é uma desvantagem, já que ficámos sem acesso directo à mesa e, nesta classe, o espaço disponível em altura nas camas superiores não permite sequer estar sentado, só mesmo deitado, o que durante cinco dias é, convenha-se, desagradável!
Numa expectativa um tanto receosa entrámos no comboio já apinhado de gente e, surpreendentemente, cheio de chineses e suas bagagens chinesas. Nos nossos lugares uma Babuschka (avozinha) acomodava-se ainda com auxílio de duas filhas. Trataram de nos perguntar se íamos para longe e, satisfeitas com o nosso destino informaram-nos que a Babuschka também ia para Moscovo. Pensaram talvez que assim a sua mãe tinha alguém que olhasse por ela...mal sabiam que seríamos nós a ganhar uma enternecedora Babuschka. Nádia de seu nome adoptou-nos como seus netos durante cinco dias. Olhou sempre pelos nossos direitos na questão do uso das mesas às refeições e dos lugares sentados durante o dia (isto porque há russos que dormem a viagem toda). Apaparicou-nos com "coisinhas" tiradas do seu cesto de comida, deu-nos sábios conselhos, mimou-nos. Quase nos fez lamentar que a viagem chegasse ao fim…
Ao longo do trajecto passaram pela nossa carruagem dezenas de passageiros. A maioria pernoitava uma ou duas noites. Os costumes do passageiro-modelo russo são engraçados. Entram todos aperaltados (a vestimenta, quer feminina quer masculina, é cuidada, embora a moda sofra de uma decalage de 20 anos). A tarefa primeira, depois de assumir os lugares marcados e de arrumar a bagagem, é trocar de roupa. O “aperaltamento” vai para o cabide ou para a mala (dependendo da classe) e é substituído pelas inevitáveis calças de fato de treino e chinelos – comportamento transversal a todas as classes (de bilhetes e sociais). Aquando das paragens, é vê-los sair para o cais nevado em chinelos e t-shirt de alças, a comprar sementes de girassol às Babuschkas. Meia hora antes das suas estações de destino, invertem o processo, e lá saem os russos das carruagem de novo aperaltadíssimos, no vestir e no cuidado facial (barbeados os homens e maquilhadas as mulheres).
Este vai e vem de Russos, acompanhado das horas de refeição e das ansiadas paragens, foram a rotina do nosso dia-a-dia. Talvez a uma média de duas em duas horas, o comboio chegava a uma estação. Em algumas parava apenas dois minutos, sem que fosse permitida a saída; noutras, o tempo de paragem variava entre 20 e 60 minutos, e aí sim, sentíamo-nos como cães de apartamento na hora do "vamos à rua?!"! Em Sevierobaikalsk (cidade na margem norte do Lago Baikal) pudemos mesmo sair da estação e, em passo de corrida, passar 15 minutos numa idílica praia banhada de sol e gelo!
A alimentação no comboio baseia-se nos 98º da água do samovar. A rodos, chá e café (instantâneo 3 em 1 - café, açúcar e leite em pó). Ainda mais a rodos, noodles (massas) e puré (instantâneos e guarnecidos com vegetais ou carne).
Para acompanhar, pão de forma russo (bem bom), fruta (bananas, laranjas e maçãs), uma ocasional salada (couve, cenoura, beterraba e maionese), e um chocolatinho para terminar. Para variar iogurtes, kefir, queijo russo (tipo flamengo), flocos de aveia, pasteis fritos (de couve ou puré de batata) e uns óptimos crepes de requeijão doce (blini com tvarok). Alguns russos mais portentosos, a este regime adicionam chouriças, pernas de frango, peixe fumado, batata cozida, gelados, cerveja e claro… vodka! A vertente masculina agrupa-se, e emborca vodka pela noite dentro até, como vimos, ao limite físico!
Aos nossos olhos, viajar no transiberiano marcou. Marcou pela experiência de reduzir significativamente a esfera pessoal sentindo-nos confortáveis. A máxima de que a tudo nos habituamos confirma-se em absoluto.


samovar e hora da refeição


colegas de viagem e a querida babuschka Nádia

Estatísticas…
Eis um quadro resumo dos nossos percursos:

Comboio, ORIGEM-DESTINO, Classe, horas de viagem, km percorridos
-nº10, MOSCOVO-IRKUTSK, Kupe, 76h, 5185 km
-nº340, IRKUTSK-ULAN-UDE, Platskartny, 8h, 457km
-nº364, ULAN-UDE-ULAAN-BAATAR, Kupe, 25h, 662km
-nº4, ULAN-BAATAR-PEQUIM, Kupe, 32h, 1559km
-nºT71, PEQUIM-HARBIN, assento duro, 13h, 1378km
-nºN23, HARBIM-SUIFENHE, Kupe, 10h, 510km
-nº402, SUIFENHE-GRADEKOVO, assento duro, 2h, 20km
-autobus, GRADEKOVO-VLADIVOSTOK, assento, 4h, 225km
-nº351, VLADIVOSTOK-KOMSOMOLSK, Platskartny, 28h, 1128km
-nº963, KOMSOMOLSK-TYNDA, Kupe, 37h, 1289km
-nº75, TYNDA-MOSCOVO, Platskartny, 119h, 7273km

Não contando com o Extra Tour Mongolia, percorremos 19686km em 354h - uma média de 55km por hora. Com isto concluímos que duas das seis semanas da viagem foram passadas dentro de um comboio e que os 20 mil km andados equivalem, em linha recta, a uma volta ao mundo no paralelo 60 (São Petersburgo) e a meia volta ao mundo no paralelo 40 (de Lisboa).


o transmongoliano no Gobi: na fronteira entre a Mongólia e a China, mudança de bitola dos carris


o transmongoliano na China (o único comboio onde as janelas se podiam abrir)