04 novembro 2005

45. O Fim da Linha

A cidade portuária de Vladivostok, fundada por marinheiros Russos em 1860, é hoje uma robusta urbe de 600 mil habitantes. É a estação terminal do transiberiano e, desde 1822, o porto de abrigo da frota militar russa do Pacífico.
Nesta data, a marinha relocalizou os seus navios desde Nikolaevska-na-Amur, 1000 km mais a norte, não só pela posição geo-estratégica de Vladivostok, mas sobretudo por estar gelada, e portanto inacessível, uma media de 70 dias por ano, em vez dos 190 de Nikolaevska-na-Amur.
Quase destruída pela guerra Russo-Japonesa em 1904, Vladivostok manteve-se fiel ao império até ser "libertada" pela revolução bolchevique em Outubro de 1922.
Durante a guerra-fria, e para protecção dos segredos da crescente armada russa, a cidade foi completamente selada a estrangeiros. Mesmo para um russo eram necessárias autorizações especiais para entrar na cidade.
Hoje, apesar de com facilidade se esbarrar contra zonas off-limits, é uma cidade aberta. Tão aberta que se diz ser um center point da actuação das famigeradas máfias russas.
Pela nossa parte, interessou-nos sobremaneira a sua topografia exaltante de colinas em torno da baia (porto natural). A São Francisco do Pacifico Oeste, assim chamada pela semelhança dos eléctricos que sobem e descem as colinas em linha recta, é a cidade mais bonita que visitámos na Rússia.


Vladivostok visto do topo de uma colina; praça soviética; estação de comboios

03 novembro 2005

44. Improbabilidades em Vladivostok

No prefácio do Guia Lonely Planet com que nos temos orientado aqui pela Rússia, descobrimos um aviso interessante. Advertem para o facto da inclusão de um dado Lugar nas páginas do Guia implicar, regra geral, a sua recomendação. Por sua vez, a exclusão de um outro Lugar não implica uma crítica. Afirmam que existem numerosas razões para a exclusão de um Lugar mas nomeiam só uma: "por vezes é apenas inapropriado encorajar o afluxo de viajantes".
Muitos dos melhores momentos das nossas viagens têm sido precisamente quando somos nós a tropeçar num local, a conquistar um segredo que não vem nos guias.
Em Vladivostok o nosso primeiro instinto foi passear pelas suas varias marginais banhadas pelo mar do Japão (ali tão perto ó Xico!). Na verdade este foi o primeiro instinto depois do instinto número Zero, de cariz pratico, que nos levou a travar uma dura e infrutífera batalha em meia dúzia de casas de câmbio para nos vermos livres de seis contos em nota Mongol... que raiva termos ficado com este dinheiro que nem lá na Mongólia lhe dão valor.
Adiante! Para um passeio pelas marginais de Vladivostok não é preciso abrir o Guia: o mar aponta o caminho certo. E assim se seguiu um passeio pelas improbabilidades de Vladivostok.
Naquela urbe portuária (e Russa!) começámos por descobrir uma improvável praia de areia na curva de uma baía: ao fundo uma série de barcos atracados ou em doca seca; atrás um parque de diversões com uma verdadeira Montanha Russa e gritinhos histéricos; lá dentro, na água, uma escultura de diebuska em grande formato a arrepia-se ao banhar-se... ou estará ela arrepiada com a luta que um par de gaivotas faz por um lugar sobre a sua cabeça?
Menos provável ainda do que esta prainha foi o "delfinário" que vimos empacotado numa estrutura ferrugenta de qualquer coisa desactivada. Para além dos silvos dos golfinhos e, depois, de uma estranha bilheteira também enferrujada, nada nos faria dar atenção àquele complexo roído pelo mar.
Frente ao "delfinário", do lado-terra da alameda marginal, está um, desta vez provável, parque infantil cheio de baloiços e escorregas. Improvável era sim o material que revestia o chão de brincar-e-cair: seixos não rolados (dura simpatia Russa).
Já no regresso, tentando chegar pela marginal ao outro lado da península, atravessámos uma zona de bares em tendas plásticas. O caminho não mostrava propriamente sinais interessantes mas parecíamo-nos lógico que atalharíamos. Logo à nossa esquerda apareceram construções em tábuas de madeira azul com um típico ar balnear. Meio escondido no vão de uma porta, um russo sentado de tronco-nu dourado aproveitada os últimos raiozinhos de sol do dia. (Convém explicar que não estava "muito frio" nesta Terça-Feira em Vladivostok. O Mar tempera esta cidade mas mesmo assim estava um friozito daqueles que em Lisboa não se sentem.) Uns passos à frente e um casal dos seus 70 anos bem medidos, igualmente apanhando umas nesgas solares, lia estiraçados sobre uma cadeira de praia. Um terceiro homem aproxima-se deles. Vem de ténis, calcas de fato-de-treino e tronco-nu. "Paidiom-pa-igrate?" (que é como quem diz: bora lá jogar?) A mulher levanta-se. Tem no tronco um colete sem braços tipo "de penas" e a indumentária completa-se só com mais um par de botas até à canela. E toca de trocarem umas bolas de volei, com estilo, mestria e poderio físico.
Não tivemos tempo para pensar no que eram aquelas gentes rijas. Da direita, e em direcção ao Mar, surgiu um Russo (por certo nascido nos anos 30) de tanga preta. Com cuidadinho a descer as escadas e lançou-se ao banho numas braçadas aflitas de frio mas corajosas e sobretudos sãs! Da tal construção de madeira pintada a azul e de ar balnear saiu outro e depois outra. Com mais ou menos momentos de meditação acabaram todos dentro de água!
Satisfeitos por assistirmos a este improvável espectáculo, que não vinha no Guia, prosseguimos caminho. Os outros continuavam a jogar volei. Cruzamo-nos com o primeiro corajoso de tanga preta (continuava só de tanga mas estava no seu jogging).
O caminho não tinha saída nem dava a volta à península como pensávamos: uma vedação onde se lia "Solarium" estava em sombra pelo prédio de uma escola de dança; como barragem final e intransponível estava um recinto de exibições desportivas da armada Russa.
Voltamos uns metros para tras e subimos uma improvável escadaria em torre para chegar ao cimo da falésia. Sem Guia não nos perdemos e ainda ganhamos uma vista panorâmica sobre toda a marginal.


improvável banho de uma escultura com gaivota sobre a cabeça; improvável banho de gente humana; vista panorâmica

02 novembro 2005

43. Pequim-Harbin-Suifenhe-Grodekovo-Vladivostok

A viagem até Vladivostok (Este Longínquo) não foi um "passeio de Domingo". Saímos de Pequim na madrugada de dia 29 e só chegamos dia 31 à noite. Pelo meio andámos em 4 comboios e 1 autocarro; dormimos num quarto com paredes decoradas com baratas (6 por nós decapitadas!); rapámos um frio danado a visitar Harbin; comprámos bilhetes em chinês; passámos a fronteira com 500 russos carregados de 1000 sacos de mercadoria chinesa; e quase perdemos a paciência na alfândega porque a compostura, essa, foi-se mesmo! Aqui em Vladivostok decidimo-nos por um hotel confortável onde estamos há duas noites lambendo as feridas.
É tempo de jogar com o calendário disponível e os comboios existentes para chegarmos a Moscovo antes do dia 12 parando, tanto quanto possível, para conhecer mais um pouco da Sibéria interior. Comprámos bilhetes para Komsomolsk-na-Amure, a 27 horas norte de Vladivostok. Significa que vamos regressar pela linha BAM (Baikal-Amur mainline), uma linha que passa pelo norte do Lago Baikal repetindo apenas o caminho por nós já efectuado a partir de Krasnoyarsk.


Harbin: Igreja de Santa Sophia (igreja ortodoxa em plena China) e vendedor de batata-doce; Suifenhe: 500 russos na alfândega

ADENDA LISBOETA A 25 DE NOVEMBRO

(The Wall Street Journal) Chinese city shuts off water after accident. By Jason Dean. November 23, 2005.
A major Chinese city shut off water to residents to protect the population from possible contamination by a chemical factory accident.
Officials in Harbin, a provincial capital in northeast China, began the water shutdown yesterday, and said the extraordinary measure probably would last at least four days. Word of the move, which leaked out before the announcement, sparked panic-buying of bottled water by the city's 3.1 million urban residents.
Harbin's plight highlights the enormous environmental challenges afflicting China amid galloping economic growth. The accident that Harbin officials fear may have contaminated their water supply occurred earlier this month, after several explosions shook a chemical plant owned by a unit of PetroChina Co., one of China's biggest energy companies. PetroChina, majority owned by the Chinese government and listed on the New York Stock Exchange, had suggested in a statement after the incident that environmental damage had been contained.



a estação de comboios onde comprámos tão a custo o nosso bilhete, agora apinhada de gente em êxodo; as consequências da descarga química; as margens onde mergulhámos as mãos

Foi com uma boa dose de choque que recebemos a notícia deste desastre ambiental. Mergulhámos as mãos neste rio Songhua, agora super contaminado!
Se há algo que fica das viagens que fazemos é esta sensação de familiaridade que, independentemente da qualidade da experiência, torna os sítios por onde passamos parte de nós. Ficam arrumados algures na prateleira dos home places…E isto expressa-se nestas ocasiões.
Assim, estes relatos longínquos, habitualmente por nós racionalmente interpretados, resultam em emoções. No que isso tem de bom e de mau! No caso dos nossos leitores, serviu este desabafo para (talvez) memorizarem uma cidade chinesa de 3 milhões de habitantes, algures na Manchúria – HARBIN.


as nossas fotos de Harbin

01 novembro 2005

42. A Nova Era

Palavras de um General Russo em 1880:
"-Pequim é um monstro! -disse Camillof oscilando reflectidamente a calva. - E agora considere que esta capital, à classe Tártara e conquistadora que a possui, obedecem 300 milhões de homens, uma raça subtil, laboriosa, sofredora, prolifera, invasora... Estudam as nossas ciências [...] tem uma marinha formidável! O exercito, que outrora julgava destrocar o estrangeiro com dragões de papelão de onde saíam bichas de fogo, tem agora táctica prussiana e espingarda de agulha! Grave!"
(trecho de "O Mandarim", de Eça de Queirós)

Existirá um paralelismo com os dias de hoje?
Bom, em 125 anos, os chineses multiplicaram-se dos 300 milhões para mais de um bilião e, se na época eram um império em decadência, hoje são o país com a maior taxa de crescimento económico do mundo e, na perspectiva de muitos, os futuros lideres do séc.XXI.
Esta antevisão é perceptível a um mero transeunte atento nas ruas de Pequim. Tudo fibrilha! Que contraste com a taciturna Rússia. Uma super potência emergente e outra em submersão. Há, é claro, em ambos os países, marcadas diferenças internas de status social, mas a sensação com que se fica é um pouco esta: quem é prospero na Rússia ou é corrupto ou mafioso, ao passo que na China, há de facto "genuínas" oportunidades de proliferação económica e cultural, sobretudo para as gerações mais jovens!
A febre com que Pequim vive a organização dos Jogos Olímpicos de 2008 é bem o reflexo desta realidade. É uma fábrica em permanente laboração. Recuperam-se monumentos, constroem-se equipamentos, treinam-se atletas, faz-se nova cidade!
Parece inacreditável que isto se passe ainda sob um sistema comunista. Apesar da abertura ao sector privado e ao mercado livre, o peso da administração pública é ainda massivo. Há empregos estatais para todos os serviços possíveis e imaginários: abrir e fechar portas, recolher lixo à mão do balastro das linhas ferroviárias, obliterar bilhetes à entrada do metro, instruir os passageiros nas entradas e saídas das carruagens nas horas de ponta, etc. A classe trabalhadora organiza-se em unidades de trabalho e obedece à complicada (e histórica) burocracia chinesa. Do varredor de rua ao professor universitário todos tem que, periodicamente, reunir-se com as respectivas unidades em sessões de crítica e autocrítica, cujos relatórios seguem, para serem supervisionados, para o partido.
Pequim é paradoxal.
Por um lado Mao Tse Tung é venerado (o seu traje despojado é ainda moda popular nas gerações mais idosas) mas por outro, abundam, nos cidadãos e na cidade, sinais exteriores de riqueza ocidentalizados.
Nos média, a censura existe mas o controlo é infantil e facilmente subvertivel. Um exemplo: a última edição da revista Time foi vendida com páginas rasgadas (trazia um artigo sobre o Web Control na China), mas a sua edição on-line estava integralmente acessível.
A justiça é um meio obscuro onde a pena de morte é aplicada com ligeireza mas, passados 15 anos do massacre de Tianamen, não há manifestações de revolta interna visível e o ambiente não é, aparentemente, de opressão.
Pequim é uma das maiores cidades do planeta e sofre de muitas das mesmas doenças das suas congéneres mega-metropoles (trânsito caótico, poluição, etc). No entanto, está vacinada contra a epidemia da criminalidade urbana. A taxa é baixíssima (que diferença da sensação de insegurança em Ulaan Baatar). Como é isto possível dentro de tanta desigualdade? Será a perspectiva da pena capital dissuasora…?

"Pequim é um monstro! - disse Camillof [...]" O que lhe irá na alma?

41. Os Hutongs

Os Hutongs surgiram (ainda na dinastia Yuan - a primeira) como forma de organizar as habitações da população em geral. Os Hutongs mais nobres ocupavam as áreas a Este e a Oeste do Palácio Imperial, enquanto que os Hutongs mais crus se localizavam nas áreas Norte e Sul (claro que o centro do Império do Meio estava reservado ao Imperador).
Conjuntos de habitações de um só piso, hoje os Hutongs escondem-se no encontro da nova com a antiga malha urbana de Pequim. Há-os de ruas largas a abarrotar de vendas, comidas, luzes e há-os de vielas estreitas e caladas que percorrendo nos sentimos a invadir a privacidade dos que lá moram.
Localizadas em terrenos de elevado valor, milhares de casas tem vindo a ser buldozeadas por investidores que sonham ver o céu arranhado por novos complexos mais luxuosos e lucrativos. Os Hutongs são uma espécie em vias de extinção. Muito trabalho vai ter a APRCP (Associação Protectora das Relíquias Culturais de Pequim).


31 outubro 2005

40. "Eles choram tão mal"

Dos 14 milhões de almas que habitam Pequim, cerca de 50 unidades são portuguesas. Conhecem-se todas e nós conhecemos algumas.
Destacamos, claro, o Gustavo Infante, nosso bondoso anfitrião (como soube bem o luxo do seu T1 depois das privações do deserto). O Gustavo trabalha em Pequim há dois anos. Enfrentou as dificuldades da pós-licenciatura concorrendo ao Instituto Camões, propondo-se corajosamente a este desafio asiático. Lecciona português, na Universidade de Estudos Estrangeiros, a Chineses que procuram sobretudo bagagem cultural para furar nas economias Lusófonas. Está perfeitamente integrado e é uma delícia ouvi-lo falar mandarim... "ta-pao, ta-pao, ni-hao, xiexie" são as únicas coisas que conseguimos perceber.
No dia em que visitámos o Templo do Céu, a certa altura, uma figura pareceu-nos estranhamente familiar: sapatos, calças e camisa eurostyle finesse, camisola Burberry's pelos ombros, cabelo à CDS-PP... será que só há "betos" em Portugal? O Rui Boavida foi assim denunciado pela aparência. Estava de passeio com a companheira e os patrões. São todos jornalistas da Agência Lusa.
Ainda mais curioso foi o segundo encontro fortuito com portugueses, desta feita no Palácio de Verão. Duas irmãs, amigas do Gustavo, estão de visita a Pequim sobretudo para compras. Como muito outros, renderam-se às maravilhas do mercado chinês e voltam para Portugal abastecidas de mercadoria vendável no Luso-Artesanato.
No último dia em Pequim jantámos optimamente num Tailandês com o Gustavo e a Liliana, igualmente professora de Português, igualmente do Instituto Camões, mas vinda de dois anos em Macau. Apesar de ser uma mulher do Norte (Viana do Castelo) está muito apreensiva com os rigores do Inverno que se aproxima! Nas palavras do Gustavo..."precisas de dois casacos, um para o Inverno e outro para o Inverno-a-sério."
Encontrámo-nos com eles no único café português (dono incluído) de Pequim. Abriu recentemente, junto à Embaixada, e serve pastéis de nata, croquetes, arroz doce e cozinha regional portuguesa!
O mais enigmático titulo de post, até agora, resolve-se com uma historia portuguesa contada pelo Gustavo e que serviu para umas boas risotas: "um amigo meu, tomou um comboio nocturno em terceira classe (assento duro) a abarrotar de chineses… Escorriam-lhe lágrimas pela cara enquanto dizia entre dentes num lamúrio - eles cheiram tão mal!"


o exaltante Sr. Professor G. Infante; os croquetes do café português; o jantar no Tailandês com a Liliana e o Gustavo

30 outubro 2005

39. Pato à Pequim

É conhecido o apetite chinês por tudo o que tenha patas ou asas, incluindo os nossos queridos canideos e felinos domésticos. Contudo, em Pequim, na corrida ao mais mastigado animal, o Pato massacra a concorrência há gerações e gerações! É uma febre esta do Pato! Em todo o lado, das mais reles tascas, passando pelos supermercados até aos mais requintados restaurantes, patos patos e mais patos são embalados, expostos e ingeridos!
Para dar vazão a tanta procura, nos arredores, os aviários da especialidade são imensos, de perder de (e a) vista! Ainda assim, encontram-se alguns espécimes semi-selvagens. Este ‘real’ sacudia as penas no lago do parque Beihai...até ao dia...



ADENDA LISBOETA A 23 DE NOVEMBRO

Hoje de manhã, o jornal ‘Metro’ trazia esta notícia:

Bom, fizemos o que agora é desaconselhável…pelo menos a portugueses! Acerca da gripe das aves, agradecemos a preocupação e os alertas que fomos recebendo via mail. Pelo que nos foi dado perceber, os chineses, para o bem e para o mal, não entram em alarmismos mediáticos (tudo controlado). Após a experiência da epidemia SARS (pneumonia atípica), as autoridades sanitárias chinesas estão agora sempre alerta e actuam com razia! Um caso, acção imediata. Chacina implacável nas vizinhanças e quarentena nos arredores! Pobres aves! Foram abençoadas com talvez o maior de todos os dons – voar! Como compensação, hoje têm de encarar outros opostos: aviários, gripes e purgas sanitárias…

38. Postais de Pequim


à espreita na Cidade Proibida; Jota e Xang em pose na Praça de Tianamen; o Palácio de Verão num dia de neblina


a adoração a Buda no Templo do Lama; a Grande Muralha entre Jinshanling e Simatai; a noite

29 outubro 2005

37. Incivilidade Total?

Esta crónica é transversal aos três países que já visitámos e debruça-se sobre as cavadas diferenças de civismo que existem entre o ocidente em geral e estas paragens.
Não raras são as vezes que nos queixamos do rude comportamento cívico português, não é? Então seguem aqui alguns exemplos para vós próprios ajuizarem das distinções:
A passadeira para peões é um conceito ambíguo. Elas existem, com zebras marcadas no chão e tudo, mas não atribuem qualquer prioridade ao pedestre. Para transpô-las este tem de, corajosamente, tourear os veículos que, como se nada fosse, prosseguem apressadamente o seu caminho (como agravante comunicacional, muitos dos automóveis têm vidros completamente fumados - uma moda pro-mafias made in America de triste reflexo dos nossos dias).
Outra suposta regra social que está nos antípodas do que estamos habituados é a fila de espera. Elas existir existem, mas tal como as passadeiras, não atribuem qualquer prioridade ao sujeito que se encontra à nossa frente. Criam-se bolsas laterais, o jogo do acotovelanço é muito valorizado e o sucesso é atingido consoante a capacidade de se ser expedito. Em resumo: é tudo à fuçanga, como os porquinhos a tentar mamar na porca-mãe.
O último exemplo é exclusivo da China e prende-se com comportamentos sociais de higiene e delicadeza duvidosas. É normal arrotar sonoramente, escarrar a plenos pulmões e cuspir para os caixotes do lixo e no chão (inclusive no chão do Metro). É também habitual cortar as unhas nos mais variados locais, tais como nas salas de aula das universidades.

22 outubro 2005

34. Repórter Xing

Chegámos bem da nossa tour. Temos muitos posts para publicar mas pouco tempo para o fazer agora. Amanhã partimos cedo para Pequim, onde chegaremos na segunda-feira.
Na China temos o contacto de um amigo que nos receberá.
Ficam informados de que na China os blogs estão proibidos. No entanto vamos tentar subverter esta censura com a ajuda do nosso Repórter Xing que enviara os posts por nós.
Esperamos conseguir também enviar os que já temos sobre a Mongólia.
Desculpem a decepção mas hoje nem o USB ajuda.

21 outubro 2005

33. Vida de Nómada

O cenário do meu nascimento foi o ger (tenda) dos meus pais. Os meus filhos nasceram no hospital da aldeia.
Na infância aprendi as tarefas e a cultura nómada. Montar e dominar cavalos e camelos, pastorear e ordenhar cabras e ovelhas, cozinhar com a carne e o leite dos animais. Aprendi a responsabilidade dos afazeres e a comportar-me socialmente.
Casei com a minha mulher (por entendimento inter-familiar) em três dias de celebrações. O primeiro apenas com a família próxima, o segundo com os amigos mais chegados e o terceiro em reunião social mais alargada. As oferendas do matrimónio consubstanciaram-se num ger e respectivo recheio (fogão a lenha, trem básico de cozinha, duas camas e duas cómodas pequenas), e numa partição do gado familiar.
Mudamos de paragem três a quatro vezes por ano, fugindo das zonas mais frias, sempre em busca das melhores pastagens. Temos no entanto morada postal na aldeia (uma espécie de apartado). É lá que estamos registados como cidadãos e onde exercemos o direito de voto (novidade pós anos 90).
A nossa riqueza material mede-se em cavalos, camelos, iaques, vacas, cabras, ovelhas e ainda cães. Comemos a carne de todos, menos dos cães, que são insubstituíveis na guarda dos gers. De quando em vez sacrificamos um animal para alimentação, estando reservada a matança de um camelo ou de um cavalo para os períodos de Inverno duros.
O dia-a-dia desenrola-se em ordenha e pastoreio dos animais, apanha e secagem da bosta destes (único combustível existente para o fogão), transporte de água dos poços próximos, cozinhar, comer e beber e, ocasionalmente, caçar uma raposa ou um antílope.
Agora que temos um painel um fotovoltaico, acumulamos energia numa bateria e, durante a noite, podemos ter luz eléctrica, ouvir rádio e ver televisão via satélite. Transportamos todos os nossos pertencer numa carroça puxada por um camelo e para as deslocações rápidas utilizamos uma bem oleada motorizada.
Raramente tomo banho. A parca água com que lidamos diariamente é racionada para sucintas lavagens corporais e de loiça. O nosso ger adapta-se às variantes do clima: mais ou menos camadas de feltro (lã animal prensada) consoante o frio e mesmo um oleado para quando neva ou chove.
Quando morrer serei enterrado na estepe ou na montanha. Junto a outras sepulturas ou não... dependendo sempre da transumância.

32. As Ruínas do Budismo

A vertente tibetana da religião Budista estava fortemente implantada na Mongólia no sec.XVI, altura em que se constituiu religião oficial do império. As revoluções Chinesa e Russa do princípio do sec.XX originaram todo um período de instabilidade no território Mongol. Invasões e ocupações envolvendo Bolcheviques, Russos Brancos (Anti-Comunistas) e Chineses resultaram num domínio soviético de 70 anos.
Em 1937, a politica anti-religiosa foi levada ao extremo. 700 Mosteiros Budistas foram destruídos e 17.000 monges executados ou desaparecidos. Nos últimos 15 anos a liberdade religiosa instaurada abriu portas à reabertura de alguns mosteiros, 160 ao que parece. Visitamos 3 deles. São de novo lugares de culto em plena "produção" mas apenas parcas estruturas, que assentam sobre os ombros gigantes de outrora.
As mais importantes construções não efémeras da Mongólia utilizam maioritariamente a pedra, o tijolo ou a terra como material de construção (dependendo da região).


templos em Taipa e Adobe: Orgon Khiid e Onglin Khiid construídos em meados de 1600

31. Machina Ruski

O herói mecânico do deserto de Gobi não é o Toyota Land Cruiser da Austrália nem o Land Rover Africano nem sequer o UMM Alentejano, mas sim o UAZ. ULYANOSVSKIY AUTOMOBUILNYI ZAROD (Fábrica). Fundada em 1941 na região do Volga, alimentou o exército vermelho do famoso Jipe UAZ69 que evoluiu comercialmente para o UAZ469. 2500 cc a gasolina, 72 hp, dois depósitos de 40 l (um em cada lateral do carro - quando o primeiro dá o berro, no interior vira-se a torneira para o segundo), suspensão de carroça e muita chapa pesada.
Com igual sucesso a palmilhar a rocha Mongol encontramos o UAZ2206. A mesma motorização 4x4, mas em modelo mini-bus para dez lugares. Ambos os veículos (adicionados da versão capota mole do UAZ69) são ainda hoje produzido e por um preço de venda muito acessível, não fosse o consumo astronómico de "benzina".
Curiosa é a estratégia industrial de produção. Um motor três modelos, o contrário do que normalmente conhecemos: um modelo varias motorizações.
Fizemos 1800 km de solavancos nos semi-confortáveis bancos de trás com direito a cabeçadas no tejadilho, trepidação crónica e turbulência poeirenta.